sábado, 6 de junho de 2015

JUNHO/2015: HOMOPHONIA NÃO É HOMOGRAPHIA

Ja tractei deste poncto em outras opportunidades, mas, deante de novos
questionamentos dos leitores, volto ao assumpto. Uma das damninhas
consequencias da orthographia reformada é a reducção de graphemas
distinctos a falsas homographias, como em HYPOTHESE e HIPPODROMO, cujo
primeiro elemento se confunde como "hipó" na forma phonetica, e ja
expliquei o damno neste blog. Outros casos que merescem explicação são
CANTO e CANTHO, TENTAR e TEMPTAR, ATTENTAR e ATTEMPTAR, TROMBA e
THROMBO, TESOURA e THESOURO, EXCOLHA e ESCOLHO, NOVELLA e NOVELO, ROMBO e RHOMBO, ANAL e ANNAL, CAPÃO e CAPPÃO, FILTRO e PHILTRO, COLA e COLLA, GRAMA e GRAMMA, PENA e PENNA. Então examinemos um a um.

O substantivo CANTO, no sentido vocal (donde CANTORIA, CANTIGA, CANTICO,
ENCANTAMENTO) differe do substantivo CANTHO, no sentido local (donde
RECANTHO, CANTHONEIRA, ESCANTHEIO, ACCANTHONAR), como venho insistindo.

O verbo TENTAR tem a ver com o substantivo TENTATIVA, e TEMPTAR com
TEMPTAÇÃO. O verbo ATTENTAR tem a ver com o substantivo ATTENÇÃO, e
ATTEMPTAR com ATTEMPTADO. Paresce simples, mas ainda ha confusão sobre
isso porque o proprio latim não adjuda muito, ja que o verbo TEMPTARE
tambem apparesce às vezes como TENTARE e, peor, admitte as duas
accepções (de "experimentar" e de "seduzir"), cabendo a nós,
novilatinos, fazer a distincção, ja que estamos numa epocha de muitos
attemptados e é preciso prestar muita attenção...

Quanto a TESOURA, vem (segundo Julio Nogueira) de TONSORIA (forma
feminina de TONSORIUS), que tem a ver com TONSURA e com TOSAR, ao passo
que THESOURO vem do latim THESAURUS. Assim como TEOR não tem a ver com
THEORIA, a distincção accaba se perdendo por causa da orthographia
reformada.

Quanto a TROMBA, tem a ver com TROMPA, donde TROMBADA e TROMBUDO sem
"H", differentemente de THROMBO, que tem a ver com THROMBOSE. Nogueira
(auctor dum manual orthographico utilissimo nos annos 1920) admitte que
o "H" de THROMBOSE pudesse cahir, mas discordo delle em todos os casos
de simplificação por mero abandono dum graphema rigorosamente
etymologico e, portanto, sustento que é justamente o "TH" de THROMBO o
differencial em relação a TROMBA.

O substantivo EXCOLHA, acto de EXCOLHER, vem do latim EXCOLLIGERE, ao
passo que ESCOLHO vem de SCOCULUS, que por sua vez vem de SCOPULUS, que
no italiano deu SCOGLIO.

O substantivo NOVELLA é puro latinismo, ao passo que NOVELO vem de
GLOBELLUS e nos chegou tão impuro que os orthographos sempre admittiram
a forma com simples "L", embora os mais radicaes se sintam liberados
para usar "L" duplo. Segundo Nogueira, {Existe a geminação em innumeras
formas diminutivas, ja moldadas em radicaes latinos, ja de creação
vernacula: BARBELLA, CABELLO, CUTELLO, CODICILLO, CADELLA, CANCELLA,
DONZELLA, JANELLA, MARTELLO, MAMMILLO, NOVELLA, PUPILLO, PUGILLO,
SCINTILLA, TABELLA, CELLULA. Por falsa analogia muitos escrevem
erradamente CAUTELA com "LL".} Sendo tanto ELLA quanto ELLO legitimas
desinencias diminutivas e sendo GLOBELLUS tambem diminutivo,
justificar-se-ia sem conflictos a forma NOVELLO e fica a criterio do
escriptor a excolha.

Quanto a ROMBO, no sentido de "buraco" (que tem a ver com ARROMBAR),
pede graphia sem "H", ao passo que RHOMBO, no sentido de "poncta" ou
"angulo" (donde RHOMBUDO e RHOMBOIDE), tem a ver com RHUMO e ARRHUMAR,
pois, como explicam os etymologistas, na antiga rosa dos ventos cada
RHOMBO (poncteiro em forma de losango) apponctava numa direcção ou
RHUMO, uma vez que do latim RHOMBUS provem RHOMBO e RHUMBO, que virou
RHUMO, emquanto o actual RHOMBO permanesce como synonymo de losango.

O adjectivo ANNAL tem a ver com ANNO e é mais usado no plural, como nos
annaes do Congresso, ao passo que ANAL tem a ver com ANUS, ainda que o
producto de ambos os adjectivos seja fecal e feda quanto mais mexido.

Quanto a CAPÃO, assim como CAPIM, tem a ver com o typo de vegetação dum
terreno, ao passo que CAPPÃO é o animal castrado ou CAPPADO, dahi
grapharmos como Capão Redondo um bairro da peripheria paulistana e como
cappão redondo um leitão bem gordo.

Quanto aos substantivos FILTRO e PHILTRO, passo a palavra a Nogueira,
com quem estou de accordo neste topico: na significação de "bebida", que
tinha a virtude de inspirar o amor, PHILTRO está ligado à morphologia de
PHILO, donde o "PH". Não confundir, porem, com FILTRO, do baixo latim
FILTRUM, de morphologia muito diversa, donde provem FILTRAR, ENFILTRAR,
INFILTRAR, palavras estas corradicaes de FELTRO, que deu FELTRE em
francez e FIELTRO no hespanhol.

O substantivo COLA (rabo ou cauda), que só leva um "L", differe de COLLA
(gomma), dahi que não posso usar "L" geminado quando digo que alguem
está na minha cola, embora ninguem queira me enrabar e sim me perseguir
ou seguir de perto.

O substantivo feminino GRAMA (matto) differe de GRAMMA (peso), que é
masculino.

Quanto a PENA, seja no sentido de compaixão ou de punição, differe de
PENNA (pluma), dahi a phrase explicando que um juiz de penna dura (ou
canneta dura) seria aquelle que applica uma pena dura sem pena. Em
tempo, esse juiz não tem coração molle, lembrando que MOLLE tem "L"
duplo mas MOLA não.

Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.

///

Um comentário:

  1. Oi, Glauco. Realmente a ortografia reformada empobrece as informações semânticas presentes na grafia etimológica. Eu, por exemplo, achava que pena no sentido de pluma era a mesma pena de compaixão. abraço do Satoru

    ResponderExcluir