segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NOVEMBRO/2015: INCOMPTAVEIS INCOHERENCIAS


Ha pouco tive occasião de explicar, neste blog de notas, como o verbo
latino COMPUTARE deu CONTAR em portuguez, passando pela forma
hypothetica COMPTAR, e como os francezes resolveram a questão,
reservando COMPTAR (COMPTER) para fazer COMPTAS e deixando CONTAR
(CONTER) para narrar CONTOS. Nosso idioma perdeu a classica
opportunidade de adoptar a subtil differenciação, por isso cahimos, pelo
systema mixto que precedeu a reforma phonetica da decada de 1940, no
actual estado de homographia simplista que, em vez de simplificar,
confundiu e... complicou.

Ja que frequentemente alludimos aos francezes, importa salientar que
Portugal resistiu mais renhidamente à simplificação phoneticista
justamente por causa da proximidade e da influencia da cultura
francophona e gallicista, mas accabou capitulando, como nós, à maldicta
vizinhança hispanica, que tanto nos prejudica a comprehensão dos
phenomenos etymologicos. Nada tenho contra a cultura hispanoamericana em
si, com sua rica e diversificada litteratura, mas sim contra o principio
linguistico que rege aquella orthographia, fique claro. O mesmo vale
para a lingua italiana, descendente que sou do paiz da bota... Mas vamos
aos factos.

Hoje minha reflexão é sobre dois termos em que temos equivalencia
franceza e sobre as consequencias logicas desse parallelismo. Tracta-se
das palavras BOTA e COTTA. Ambas teem forma commum no francez: BOTTE e
COTTE. Por que, então, a digraphia do portuguez?

No sentido do revestimento de malha usado pelos cavalleiros medievaes
nas armaduras, COTTA bem differe de COTA (parcella), que aliaz devia ser
graphada QUOTA, como QUOTAR, QUOTEJAR, QUOTIDIANO ou QUATTORZE. A
questão, nesse caso, seria esta: si COTTA era graphia correntemente
practicada, por que não admittirmos BOTTA, BOTTINA, inclusive para
distincção entre as flexões do verbo BOTAR, que vem do antigo francez
BOTER, que por sua vez se distingue de BOTTE?

Isso nos leva a outra questão, egualmente pertinente. A desinencia
"OTTE", como "ETTE", quando apportuguezada, costuma resultar num simples
"OTA" ou "ETA", caso de MARMOTTE (MARMOTA), GAVOTTE (GAVOTA), CALOTTE
(CALOTA) e CHARLOTTE (CARLOTA), ou SILHOUETTE (SILHUETA), ROULETTE
(ROLETA), GAZETTE (GAZETA) e JULIETTE (JULIETA), e o "T" geminado só se
mantem quando a palavra conserva a forma original, como em PLAQUETTE,
MANCHETTE ou CHARRETTE. Assim tambem occorre comparativamente a formas
italianas equivalentes, como GAZZETTA ou GIULIETTA. Seria o caso de
radicalizarmos, nós, etymologistas, na insistencia de usar graphemas
como BOTTA, MARMOTTA, GAZETTA ou JULIETTA?

Minha opinião tende a acceitar uma relativa simplificação, que se
justifica por não ser resultante do arbitrio immediatista de meia duzia
de academicos e sim da tradição escripta, mas sempre admittindo a
adopção do duplo "T" quando implicar evidente utilidade diacritica, como
no caso de COTTA e QUOTA ou de BOTTA e BOTAR, coherentemente com COMPTAR
e CONTAR.

Outra reflexão sobre as inevitaveis incoherencias com as quaes
convivemos (mesmo si não tivessemos os maldictos phoneticistas para
attrapalhar) é sobre trez dos nomes proprios mais communs da lingua
portugueza: José, João e Joaquim. Si adoptamos JACOB, DAVID ou NAZARETH
com valor phonetico de "Jacó", "Davi" e "Nazaré", e si acceitamos que o
"PH" não soa em PHTHISICA ou DIPHTHONGO, por que não adoptarmos JOSEPH
com valor de "José"? Si adoptamos ABRAHÃO e JEHOVAH, por que não JOHÃO,
que em latim é JOHANNES? E si adoptamos RACHEL e MALACHIAS, por que não
JOACHIM? Claro que, nesse caso, as equivalencias femininas seriam
JOSEPHA, JOACHINA e JOHANNA, pois nesta ultima reflectiria o "N"
geminado.

Não preconizo taes graphemas como norma, mas creio que o bom senso do
escriptor será sufficiente para deliberar sobre cada caso. Concluo
lembrando que vou incluindo as pertinentes alternativas no DICCIONARIO
ORTHOGRAPHICO, agora disponivel na nuvem attravez do link abbaixo. Até o
mez que vem!

https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0

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