sábado, 4 de junho de 2016

JUNHO/2016: PARA GRAPHAR O "F" NÃO TEMOS QUE GARFAR O "PH"



Na postagem do mez passado commentei a questão levantada pelo leitor
Euclydes accerca do emprego do "Y" e do "I" em palavras de origem
grecolatina. Agora commento o uso do "PH" e do "F", complementando a
dica sollicitada por elle.


Si nos hellenismos latinizados a coexistencia do "I" e do "Y" pode
suscitar duvidas, a confusão do "PH" e do "F" só occorre no ambiente
novilatino, uma vez que no grego o "F" não existia. Eis a razão pela
qual actualmente convivemos com vocabulos como EFFEITO ao lado de
EPHEBO, OFFICIO ao lado de OPHIDIO, FETO ao lado de PHOTO, FALLACIA ao
lado de PHILAUCIA ou FRUCTIFERO ao lado de PHOSPHORO. Dahi por que a
melhor dica seria a de que o "PH" só occorre em palavras de origem
grega, emquanto o "F" indica matriz latina. Differenciar umas das outras
exige alguma experiencia, mas sempre são uteis aquellas tabellinhas
mnemonicas que, a exemplo das tabuadas arithmeticas, adjudam a
accostumar o estudante (ou o estudioso) aos casos mais typicos.


Meu DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO traz tabellas mais completas, mas aqui dou
uma admostragem dos casos de latinismos e hellenismos matriciaes que
geram e disseminam derivados pelo idioma. Primeiro a tabella parcial de
latinismos:


FALCI em FALCIFORME, FALCIMALLEO
FASCIO em FASCIOTOMIA
FEITO em AFFEITO, CONFEITO, DEFEITO, EFFEITO, PERFEITO
FENDER em DEFENDER, INFENDER/INFENSO, OFFENDER
FERIR em AFFERIR, CONFERIR, DIFFERIR, INFERIR, PREFERIR, TRANSFERIR
FERO em FRUCTIFERO, GYPSIFERO
FICIO em ARTIFICIO, OFFICIO, ORIFICIO, PASTIFICIO
FIDE [ou FIDEI] em FIDEDIGNO, FIDEICOMMITTENTE
FIDO em MULTIFIDO, PENNATIFIDO
FIGURAR em AFFIGURAR, CONFIGURAR, DESFIGURAR, PREFIGURAR
FILI em FILIFORME, FILIGRANA
FINI em AFFINIDADE, FINIANNUAL, FINISEMANAL, FINISECULAR
FIRMAR em AFFIRMAR, CONFIRMAR
FISSI em FISSIDACTYLO
FIXAR em AFFIXAR, PREFIXAR, TRANSFIXAR
FLABELLI em FLABELLIPEDE
FLAMMI em FLAMMIGERO
FLAVI em FLAVIPEDE
FLIGIR em AFFLIGIR, CONFLIGIR/CONFLICTO, INFLIGIR
FLUCTI em FLUCTISONANTE, FLUCTIVAGO
FLUIR em AFFLUIR, EFFLUIR, INFLUIR, REFLUIR
FLUO em SUPERFLUO, MELLIFLUO
FLUVIO em EFFLUVIO, FLUVIOMETRO
FOLIO em MILLEFOLIO, OPPOSITIFOLIO, QUADRIFOLIO
FORMAR em CONFORMAR, DEFORMAR, PERFORMAR, REFORMAR, TRANSFORMAR
FORMICI em FORMICIVORO
FORMIO em CHLOROFORMIO, LYSOFORMIO
FRAGI em FRAGIFERO
FRAGIO [ou FRAGO] em NAUFRAGIO, OSSIFRAGO
FRATRI em FRATRICIDA
FRIGI em FRIGIFUGO
FRONDI em FRONDICOLA
FRONTAR em AFFRONTAR, CONFRONTAR, DEFRONTAR
FUCI em FUCICOLA, FUCIVORO
FUGO em CENTRIFUGO, HYDROFUGO, VERMIFUGO
FULMINI em FULMINIVOMO
FULVI em FULVIROSTRO
FUMI em FUMIFLAMMANTE, FUMIFUGO
FUNDIR em AFFUNDIR, CONFUNDIR, DIFFUNDIR, INFUNDIR, TRANSFUNDIR
FUNI em FUNIFORME
FURCI em FURCIFORME
FUSCI em FUSCIROSTRO


Note-se que varios exemplos são composições mixtas com hellenismos, como
CHLOROFORMIO, FASCIOTOMIA, FISSIDACTYLO, FLUVIOMETRO, GYPSIFERO e
HYDROFUGO, mas taes hybridismos são opportunos para que attentemos ao
facto de que nem sempre a presença de elementos compositivos gregos
basta para justificar um "PH" em qualquer caso.


A seguir, collo uma tabellinha de affixos gregos iniciados por "PH",
para contrastar com a lista precedente:


PHACO em APHACIA, PHACOPYOSE
PHAGO [ou PHAGIA] em PHAGOCYTOSE, ANTHROPOPHAGO
PHALACRO em PHALACROCARPO
PHALLO em PHALLOCRACIA
PHANERO em PHANEROGAMICO
PHANO em DIAPHANO
PHANTA em HIEROPHANTA, SYCOPHANTA
PHARMACO em PHARMACODYNAMICA
PHASEOLO em PHASEOLIFORME
PHASIA em DYSPHASIA, PARAPHASIA
PHATNIO em PHATNIORRHAGIA
PHELLO em PHELLOGENIO
PHEMIA em EUPHEMISMO, DYSPHEMIA
PHENGO em PHENGOPHOBIA
PHENO em PHENOLOGIA, PHENOMENO
PHEO em PHEODERMICO
PHILO [ou PHILIA] em PHILOSOPHIA, COPROPHILIA
PHLEBO em PHLEBOTOMIA
PHLEO em PHLEOPHAGIA
PHLOGO em PHLOGISTICO
PHLOO em PHLOOPLASTIA
PHOBIA [ou PHOBO] em PHOTOPHOBIA, PHOBOPHOBO
PHOLO [ou PHOLI] em PHOLIDOTO
PHONO em LUSOPHONO, PHONOGRAMMA
PHORESE em ELECTROPHORESE
PHORO em SEMAPHORO, PHOSPHORO
PHOS [ou PHOSIA] em PHOSPHENO, CHROMOPHOSIA
PHOTO em PHOTOPHOBIA, PHOTOMETRO
PHRAGMATO em PHRAGMATOPHORO
PHRAGMO em PHRAGMOSE, DIAPHRAGMA
PHRASE [ou PHRASTICO] em PERIPHRASE, METAPHRASTICO
PHRENO em PHRENOLOGIA
PHRYNO em PHRYNOMORPHO
PHTHIRO em PHTHIRIASE
PHTHISIO em PHTHISIOLOGIA
PHYCO em PHYCOLOGIA
PHYLLO em PHYLLODENDRO, CHLOROPHYLLA
PHYMO [ou PHYMATO] em PHYMATOSO
PHYRO em GRANOPHYRO
PHYSIO [ou PHYSE] em PHYSIOTHERAPICO, APOPHYSE
PHYTO em PHYTOCHYMICA, PHYTOTHERAPIA


Obviamente não estou aqui suggerindo que listas desse typo sejam
guardadas na poncta da lingua (ou dos dedos), mas quem as consulta e
reconsulta vae se lembrar de que FALLO (verbo FALLAR) não se escreve
como PHALLO (penis), nem FACA como PHOCA, nem FRAGMENTO como DIAPHRAGMA,
nem AFRODESCENDENTE como APHRODISIACO, nem DESAFFORO como APHORISMO.


Outros paradigmas são mencionados no MANUAL ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO de
Julio Nogueira, do qual transcrevo o trecho pertinente, resalvados os
apponctamentos finaes, ja que nosso querido Nogueira nunca excappa de
algum quinau da parte dos que prezam uma escripta rigorosa e coherente.


{O digramma "PH" representa o "PHI" grego, de que foi transcripção
latina. Apparesce como inicial em muitas palavras: PHAGOCYTO, PHALANGE,
PHALENA, PHARMACIA, PHAROL, PHARYNGE, PHASE, PHENICO, PHENIX, PHENOMENO,
PHLEBITE, PHLEGMÃO (popularmente FLEIMÃO), PHLEUGMA, PHILTRO, PHOCA,
PHOSPHORO, PHRASE, PHRYGIO, PHYLLOXERA, PHYSICA, PHYSIOGNOMIA,
PHYSIOLOGIA, e corradicaes de todas essas palavras, alem de grande
numero de palavras eruditas applicadas às sciencias e às artes.


Do elemento PHONÉ (voz) apparesce em PHONEMA, PHONETICA, PHONOLOGIA,
GRAMMOPHONE, PHONOGRAPHO, TELEPHONE, APHONIA, ANTIPHONA, SYMPHONIA, etc.


Do elemento PHILOS (amigo), em: PHILHARMONICA, PHILANTHROPO, PHILAUCIA,
PHILOLOGIA, PHILOSOPHIA, PHILATELIA, THEOPHILO, PHILIPPE, HYDROPHILO,
BIBLIOPHILO, etc. E alguns hybridismos, como: FRANCOPHILO, GERMANOPHILO,
etc.


Do elemento GRAPHO (eu escrevo), em: GRAPHIA, ORTHOGRAPHIA, NEOGRAPHIA,
CACOGRAPHIA, GRAPHOLOGIA, GEOGRAPHIA, CHOROGRAPHIA, OCEANOGRAPHIA,
PHONOGRAPHO, TELEGRAPHO, HIEROGRAPHIA, PHOTOGRAPHIA, LITHOGRAPHIA.


Do elemento MORPHÉ (forma), em: MORPHOLOGIA, MORPHOGENIA, MORPHEMA,
MORPHEU, MORPHINA (MORPHINOMANO), AMORPHO.


Do elemento PHOTÓS (luz) em: PHOTOGRAPHIA, PHOTOTYPIA, PHOTOMETRO,
PHOTOPHOBIA.


Do elemento PHAG (de PHAGEIN, comer), em: PHAGOCYTO, ANTHROPOPHAGO,
GEOPHAGO (que come terra).


Do elemento KEPHALÉ (cabeça), em: CEPHALALGIA, ENCEPHALO, ACEPHALO,
MACROCEPHALO, MICROCEPHALO, HYDROCEPHALIA, BUCEPHALO (cabeça de boi. Era
o nome do cavallo de Alexandre).


Do elemento PHÓBOS (medo, horror, adversão), em: PHOBIA, HYDROPHOBIA,
XENOPHOBIA (adversão ao extrangeiro), PHOTOPHOBIA.


No corpo da palavra são innumeras as vezes em que apparesce o "PH":
APHASIA, APHELIO, APHORISMO, APHTHA, APOCRYPHO, APOSTROPHE, OPHIDIO,
OPHTHALMIA, ELEPHANTE, NYMPHA, LYMPHA, DELPHIM, PORPHYRO. O esquecimento
prosodico se deu em PHTHISICA pelo que ora se representa ainda o "TH"
correspondente ao theta: THISICA, ora se reduz a palavra a TISICA, forma
que ja nos paresce preferivel. Outro tanto cabe dizer em relação a
DIPHTHONGO, TRIPHTHONGO, que escrevemos DITONGO, TRITONGO. Somente os
irreductiveis hellenizantes pronunciam ainda hoje TRIFTONGO, DIFTONGO. O
digramma "PH" reduziu-se a "F" em FAISÃO (PHASIANA, ave do rio Phasis)
em FEIJÃO (PHASEOLUS, emprestimo do grego). Ha tendencia pronunciada
para escrever FANTASIA, FANTASMA, FRENESI, FRENETICO, formas ja hoje
preferiveis. Quanto a FANAL esta deve ser a graphia, ja auctorizada pela
transcripção do baixo latim FANALE. Ainda não se generalizou a escripta
FRASE.}


Começando pelo fim, replico que PHRASE com "F" é coisa que jamais
poderia se "generalizar", a menos que, ja na decada de 1920, Nogueira
acceitasse duma vez a reforma que, infelizmente, accabou sobrevindo em
1943. Si Nogueira não se posiciona entre os que chama de "irreductiveis
hellenizantes", eu me posiciono entre os irreductiveis militantes
etymologistas que escrevem PHTHISICA e DIPHTHONGO com a maior convicção.
Va la que alguns de nós não façamos questão de graphar PHAISÃO, PHLEIMÃO
ou PHEIJÃO, mas não podemos abrir mão de PHANTASIA, PHANTASMA ou
PHRENESI, absolutamente. Quanto ao baixo latim, Nogueira o invoca para
justificar uma simplificação, mas quando se tracta de invocar
etymologismos consuetudinarios para justificar uma forma estheticamente
melhor, como CALIPHA ou CAMPHORA (bem como COLYSEU ou SEPULCHRO), ahi
elle vem dizer que são fontes illegitimas. Até paresce vicio ideologico
esquerdizante, livrae-nos Zeus! Apesar de tudo, nosso Nogueirinha
permanesce digno de carinhosa memoria, que Zeus o tenha.


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.


https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0


///

Um comentário: