O blog ETYMOGRAPHIA archiva os commentarios de Glauco Mattoso sobre o systema etymologico que elle adopta e diffunde em chronicas publicadas desde 2009 e em seu DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO.
sábado, 9 de janeiro de 2016
JANEIRO/2016: SINGELLAS QUERELLAS
Questão relativamente simples occorre-me trazer à pauta deste blog de
notas, por compta de algumas duvidas levantadas pelos mais pingados dos
quattro internautas que me consultam. Embora seja poncto pacifico que o
suffixo latino "ELLA" tem funcção diminutiva em casos como CIDADELLA,
TABELLA, CANNELLA ou RODELLA, o systema mixto não extendia tal conceito
às desinencias verbaes "ADELLA" e "IDELLA", tractadas pelos grammaticos
e lexicographos como meros graphemas substantivados, compostos de
participios aos quaes se pospunha um suffixo dicto vernaculo, "ELA", sem
geminação do "L". Assim, de verbos como APPALPAR, ESCARRAR, ESPIAR,
OLHAR, LAMBER, MORDER, CUSPIR ou SACUDIR derivariam substantivos como
APPALPADELA, ESCARRADELA, ESPIADELA, e assim por deante.
Ora, está claro que cada um desses substantivos é forma alternativa do
respectivo diminutivo, a saber, APPALPADINHA, de APPALPADA;
ESCARRADINHA, de ESCARRADA; ESPIADINHA, de ESPIADA, donde a perfeita
applicabilidade do suffixo latino "ELLA" addeante mencionado. Temos,
portanto, como formas absolutamente legitimas as dos substantivos
APPALPADELLA, ESCARRADELLA, ESPIADELLA, etc. extensivos a todos os casos
analogos. Ja tractei de verbetar, no DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO, os
exemplos mais usuaes ou utilizaveis.
Cumpre a nós, etymologistas, attentar para quaesquer manobras
simplificadoras dos phoneticistas que, sempre obcecados pela graphia
reformada, escamoteiam os vinculos mais tradicionaes sob o pretexto de
que taes ou quaes vocabulos se teriam formado ja no portuguez e por isso
dispensariam pospositivos latinos na composição de seus derivados. Faço
questão de conclamar os collegas de lucta philologica em torno desse
poncto que, si para quem practicava o systema mixto prequarentista era
irrelevante, para nosoutros é cavallo de battalha.
Outra questão simples é o suffixo "ETTO" em palavras de origem italiana,
quando confrontado com seu homophono vernaculo "ETO", que tem funcção
tambem diminutiva, a exemplo do supracitado "ELLA". Vocabulos como
CORETTO, QUARTETTO, TERCETTO, DUETTO ou LIBRETTO são inquestionaveis,
bem como aquelles em que não occorre o duplo "T", como FOLHETO,
PAMPHLETO, POEMETO, CARRETO, GRAVETO ou CHLORETO. Só me chegam duvidas
quanto a dois casos: QUINCTETTO e SONNETTO. No primeiro, cabe o
hybridismo entre o latim QUINCTUS e o suffixo italiano, ja que o
graphema comparesce em QUINCTILHA, QUINCTESSENCIA, QUINCTUPLO ou
QUINCTANNISTA e seria incoherente supprimir o "C" apenas em QUINTETTO.
No segundo, ao contrario do que suppuzeram alguns, não practico o
hybridismo entre o italiano SONETTO e o inglez SONNET. Succede que o
proprio italiano, onde a palavra foi cunhada, tem a forma antiga
SONNETTO, que perdeu um "N" e, ja no portuguez, foi simplificada como
SONETO pelo nosso systema mixto. Pessoalmente não fiz questão de evitar
tal forma por volta de 1999, quando comecei a compor copiosamente nesse
molde, mas hoje penso que seja acconselhavel restaurar ambas as
geminações, do "N" e do "T", para manter a coherencia com QUARTETTO e
TERCETTO, sem destoar da forma ingleza SONNET.
Para finalizar por este mez, transcrevo um trecho da mensagem enviada
pelo mesmo Felippe que ja me entrevistou neste blog de notas. Em
seguida, passo a responder.
{A duvida que me veiu é a seguinte: Percebemos que o digrapho "CH",
então, recebeu em nossa lingua os valores phoneticos da guttural surda
"K" e da sibilante palatizada surda "X", como em "CHALÉ" ou "CHICARA";
logo, seria errado attribuir a elle, o digrapho "CH", outro valor
phonetico que não permanesceu em nossa lingua pela tradição, no intuito
de tornar algumas outras palavras mais "latinizadas", como em
"CHIRURGIA" e "ARCHEBISPO"? Ou seja, seria errado darmos ao digrapho
"CH" o valor de "S", como em "SAPO"? Apoz ponderar, cheguei á conclusão
que sim! Seria errado attribuir um valor phonetico que não nos foi
legado pela tradição... Porem, ao analysar o DICCIONARIO DA LINGUA
PORTUGUEZA de MORAES SILVA, de 1789, vejo que la foi registrada a forma
"CHIRURGIA" como synonymo de "CIRURGIA"! Não sei si essa palavra foi
registrada assim por outros lexicographos pois meu conhescimento é
escasso, mas, com base neste diccionario em especifico, não teriamos
respaldo para então attribuir ao "CH" tambem o som de "S" e graphar
"ARCHEBISPO" e "CHIRURGIA", com seus respectivos derivados? Claro que o
dicto DICCIONARIO data de 1789, mas isso seria um empecilho?}
Minha resposta: Sim, seria um empecilho, não pela data, mas pela idéa de
que Moraes haja verbetado ambas as formas para acceitar a pronuncia
sibilante do digramma "CH". O que Moraes fez foi acceitar algo que, em
nossos tempos de phoneticismo, seria equivalente a registrar "CIRURGIA"
ao lado de "QUIRURGIA" para validar ambas. Ora, sabemos que hoje ninguem
usaria "QUIRURGIA" (ainda que se use "QUIROPRAXIA" para CHIROPRAXIA), de
modo que restaria apenas a forma usual, "CIRURGIA", entre as poucas
excepções à escripta etymologica e à pronuncia guttural do digramma
grego "CH". Em tempo: digo "digramma" e não "digrapho", que é outra
coisa. (Digraphia significa duas formas para a mesma palavra, como CYSTO
e KYSTO ou MYRTA e MURTA) Antes de proseguir, transcrevo um paragrapho
do MANUAL ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO de auctoria do philologo Julio
Nogueira, que data da decada de 1920. Depois concluo o meu commentario.
{Por vezes uma alteração prosodica determinou a perda do "H". A
influencia do "E" e do "I" posteriores ao "C" fez-se sentir, apesar da
intercorrencia do "H", em ARCEBISPO, ARCEBISPADO, ARCEDIAGO,
ARCEDIAGADO, ARCIPRESTE, ARCIPRESTADO. Reapparesce o "H" e, com elle, o
som guttural na formação erudita - ARCHIEPISCOPAL. Foi ainda a mesma
influencia que transformou a prosodia e a escripta de CHIRURGIA em
CIRURGIA (CIRURGIÃO, CIRURGICO). A explicação é que estas palavras se
vulgarizaram ao passo que as demais, pela sua applicação erudita,
estiveram fora do alcance dessa chymica popular da linguagem. Outro
exemplo se encontra em CATECHISMO, que se pronunciava dando ao "CH"
correspondente ao chi o valor de "KÊ", ainda conservado em CATECHESE,
CATECHIZAR. Mas a acção popular reduziu o "KÊ" para "CÊ" e da pronuncia
CATECISMO resultou essa graphia. Cabe ainda mencionar a graphia
BATRACIOS, indicadora de uma prosodia diversa da rigorosamente
etymologica: BATRACHIOS.}
Concluindo, meu attento Felippe, embora eu não seja enthusiasta das
influencias prosodicas na orthographia, devo acceitar taes excepções
como aquillo que de facto são: excepções, portanto raras e plausiveis.
Assim, você accertou ao suppor que seria absurdo extender a graphia "CH"
a taes casos, si a pronuncia a distorceu. Para mim, um dilemma ainda
maior que a digraphia entre CIRURGIA e CHIRURGIA é a homographia entre
CHORO (canto) e CHORO (pranto), que, para peorar, não resulta em
homophonia! Isso levou à acceitação da excepção CORO para a primeira
forma, mas cheguei a propor, radicalmente, a forma KHORO para
differenciar de CHORO, como ja commentei neste blog. Affinal, temos
outros casos de hellenismos graphados com "K", como KALEIDOSCOPIO, KOSMO
ou KYSTO, é ou não é? Continue levantando essas lebres, Felippe, para
que possamos mactar varios coelhos com uma cajadada!
Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0
///
sábado, 28 de novembro de 2015
DEZEMBRO/2015: INTERLIGAÇÕES INTERNAUTICAS
Instado por um leitor deste blog de notas, respondo sobre uma
interessante particularidade na assimilação duma consoante final de
prefixo pela inicial do morphema pospositivo. Tracta-se do prefixo INTER
deante de palavra iniciada por "L". O leitor me questiona si, tal como
occorre com INTELLIGIR (INTER+LIGIR), não caberia o mesmo em relação a
INTERLIGAR ou INTERLOCUTOR. De facto, coherentemente com COLLIGIR e
COLLIGAR (CON+L), haveria logica nessa assimilação que, entretanto, só
occorre nos cognatos de INTELLIGIR, como INTELLIGENCIA ou INTELLECTO.
Não convem generalizar aquillo que no proprio latim paresce ser
excepção, ja que, para INTERLOCUTOR, a matriz latina seria INTERLOCUTUS,
de INTERLOQUOR. Portanto, acho "forçação de barra" escrevermos
INTELLIGAÇÃO ou INTELLOCUÇÃO, embora sejam correctas as formas
COLLIGAÇÃO e COLLOQUIO.
Outro leitor colloca uma questão absolutamente nova: sahiu nos States a
designação scientifica para enquadrar tanta gente dependente do cellular
a poncto de não conseguirem ficar sem olhar para elle siquer por alguns
minutos. Essa especie de "syndrome de abstinencia" ou de vicio
technologico ja tem nome: NOMOPHOBIA. Succede que, pelas praxes da
composição classica, o correcto é cunhar termos scientificos só com
elementos gregos. Assim, para compormos um neologismo allusivo a alguma
phobia que se queira baptizar, teriamos que achar o equivalente grego
para aquillo de que temos medo ou adversão. No caso, o que ja existe no
grego é NOMO, porem com dois significados distinctos. Vejam como esse
graphema apparesce no meu DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO:
+NOMO+ [+NOMIA+] (1) "lei", "territorio" em NOMOGRAPHIA, AUTONOMIA
+NOMO+ (2) "pastagem" em NOMOPHYTA
Ora, pergunta meu leitor, que é que isso tem a ver com aquella compulsão
dos portadores dos taes apparelhinhos de telephonia movel, que ja
viraram minicomputadores portateis? O problema é que os americanos teem
mania de truncar quaesquer palavras, na ansia de abbreviar termos muito
correntes ou de uso commercial, tal como fizeram com HI-FI (HIGH
FIDELITY) ou WI-FI (WIRELESS FIDELITY), pouco se importando si as
palavras são cortadas sem deixar syllabas ou mesmo phonemas inteiros.
Dahi que, para a expressão "NO MOBILE" (privação do cellular), não
hesitaram e crearam "NO-MO", donde NOMOPHOBIA. Uma barbaridade, em
termos de respeito à etymologia, mas que paresce natural para os
psychologos que diagnosticam o tal disturbio de comportamento em cada
vez mais pacientes. Fazer o que? A mim cumpre registrar o neologismo e
convidar nossos companheiros de etymologismo à reflexão. E ahi,
twitteiros? Acham vocês que são todos nomophobicos? Ou conseguem deixar
de lado o tal equipamento vital para uma virtual pausa meditativa?
Emquanto vocês pensam, aqui deixo o link para meu menu na nuvem, onde
podem achar o DICCIONARIO e outras obras de eventual interesse.
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0
///
interessante particularidade na assimilação duma consoante final de
prefixo pela inicial do morphema pospositivo. Tracta-se do prefixo INTER
deante de palavra iniciada por "L". O leitor me questiona si, tal como
occorre com INTELLIGIR (INTER+LIGIR), não caberia o mesmo em relação a
INTERLIGAR ou INTERLOCUTOR. De facto, coherentemente com COLLIGIR e
COLLIGAR (CON+L), haveria logica nessa assimilação que, entretanto, só
occorre nos cognatos de INTELLIGIR, como INTELLIGENCIA ou INTELLECTO.
Não convem generalizar aquillo que no proprio latim paresce ser
excepção, ja que, para INTERLOCUTOR, a matriz latina seria INTERLOCUTUS,
de INTERLOQUOR. Portanto, acho "forçação de barra" escrevermos
INTELLIGAÇÃO ou INTELLOCUÇÃO, embora sejam correctas as formas
COLLIGAÇÃO e COLLOQUIO.
Outro leitor colloca uma questão absolutamente nova: sahiu nos States a
designação scientifica para enquadrar tanta gente dependente do cellular
a poncto de não conseguirem ficar sem olhar para elle siquer por alguns
minutos. Essa especie de "syndrome de abstinencia" ou de vicio
technologico ja tem nome: NOMOPHOBIA. Succede que, pelas praxes da
composição classica, o correcto é cunhar termos scientificos só com
elementos gregos. Assim, para compormos um neologismo allusivo a alguma
phobia que se queira baptizar, teriamos que achar o equivalente grego
para aquillo de que temos medo ou adversão. No caso, o que ja existe no
grego é NOMO, porem com dois significados distinctos. Vejam como esse
graphema apparesce no meu DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO:
+NOMO+ [+NOMIA+] (1) "lei", "territorio" em NOMOGRAPHIA, AUTONOMIA
+NOMO+ (2) "pastagem" em NOMOPHYTA
Ora, pergunta meu leitor, que é que isso tem a ver com aquella compulsão
dos portadores dos taes apparelhinhos de telephonia movel, que ja
viraram minicomputadores portateis? O problema é que os americanos teem
mania de truncar quaesquer palavras, na ansia de abbreviar termos muito
correntes ou de uso commercial, tal como fizeram com HI-FI (HIGH
FIDELITY) ou WI-FI (WIRELESS FIDELITY), pouco se importando si as
palavras são cortadas sem deixar syllabas ou mesmo phonemas inteiros.
Dahi que, para a expressão "NO MOBILE" (privação do cellular), não
hesitaram e crearam "NO-MO", donde NOMOPHOBIA. Uma barbaridade, em
termos de respeito à etymologia, mas que paresce natural para os
psychologos que diagnosticam o tal disturbio de comportamento em cada
vez mais pacientes. Fazer o que? A mim cumpre registrar o neologismo e
convidar nossos companheiros de etymologismo à reflexão. E ahi,
twitteiros? Acham vocês que são todos nomophobicos? Ou conseguem deixar
de lado o tal equipamento vital para uma virtual pausa meditativa?
Emquanto vocês pensam, aqui deixo o link para meu menu na nuvem, onde
podem achar o DICCIONARIO e outras obras de eventual interesse.
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0
///
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
NOVEMBRO/2015: INCOMPTAVEIS INCOHERENCIAS
Ha pouco tive occasião de explicar, neste blog de notas, como o verbo
latino COMPUTARE deu CONTAR em portuguez, passando pela forma
hypothetica COMPTAR, e como os francezes resolveram a questão,
reservando COMPTAR (COMPTER) para fazer COMPTAS e deixando CONTAR
(CONTER) para narrar CONTOS. Nosso idioma perdeu a classica
opportunidade de adoptar a subtil differenciação, por isso cahimos, pelo
systema mixto que precedeu a reforma phonetica da decada de 1940, no
actual estado de homographia simplista que, em vez de simplificar,
confundiu e... complicou.
Ja que frequentemente alludimos aos francezes, importa salientar que
Portugal resistiu mais renhidamente à simplificação phoneticista
justamente por causa da proximidade e da influencia da cultura
francophona e gallicista, mas accabou capitulando, como nós, à maldicta
vizinhança hispanica, que tanto nos prejudica a comprehensão dos
phenomenos etymologicos. Nada tenho contra a cultura hispanoamericana em
si, com sua rica e diversificada litteratura, mas sim contra o principio
linguistico que rege aquella orthographia, fique claro. O mesmo vale
para a lingua italiana, descendente que sou do paiz da bota... Mas vamos
aos factos.
Hoje minha reflexão é sobre dois termos em que temos equivalencia
franceza e sobre as consequencias logicas desse parallelismo. Tracta-se
das palavras BOTA e COTTA. Ambas teem forma commum no francez: BOTTE e
COTTE. Por que, então, a digraphia do portuguez?
No sentido do revestimento de malha usado pelos cavalleiros medievaes
nas armaduras, COTTA bem differe de COTA (parcella), que aliaz devia ser
graphada QUOTA, como QUOTAR, QUOTEJAR, QUOTIDIANO ou QUATTORZE. A
questão, nesse caso, seria esta: si COTTA era graphia correntemente
practicada, por que não admittirmos BOTTA, BOTTINA, inclusive para
distincção entre as flexões do verbo BOTAR, que vem do antigo francez
BOTER, que por sua vez se distingue de BOTTE?
Isso nos leva a outra questão, egualmente pertinente. A desinencia
"OTTE", como "ETTE", quando apportuguezada, costuma resultar num simples
"OTA" ou "ETA", caso de MARMOTTE (MARMOTA), GAVOTTE (GAVOTA), CALOTTE
(CALOTA) e CHARLOTTE (CARLOTA), ou SILHOUETTE (SILHUETA), ROULETTE
(ROLETA), GAZETTE (GAZETA) e JULIETTE (JULIETA), e o "T" geminado só se
mantem quando a palavra conserva a forma original, como em PLAQUETTE,
MANCHETTE ou CHARRETTE. Assim tambem occorre comparativamente a formas
italianas equivalentes, como GAZZETTA ou GIULIETTA. Seria o caso de
radicalizarmos, nós, etymologistas, na insistencia de usar graphemas
como BOTTA, MARMOTTA, GAZETTA ou JULIETTA?
Minha opinião tende a acceitar uma relativa simplificação, que se
justifica por não ser resultante do arbitrio immediatista de meia duzia
de academicos e sim da tradição escripta, mas sempre admittindo a
adopção do duplo "T" quando implicar evidente utilidade diacritica, como
no caso de COTTA e QUOTA ou de BOTTA e BOTAR, coherentemente com COMPTAR
e CONTAR.
Outra reflexão sobre as inevitaveis incoherencias com as quaes
convivemos (mesmo si não tivessemos os maldictos phoneticistas para
attrapalhar) é sobre trez dos nomes proprios mais communs da lingua
portugueza: José, João e Joaquim. Si adoptamos JACOB, DAVID ou NAZARETH
com valor phonetico de "Jacó", "Davi" e "Nazaré", e si acceitamos que o
"PH" não soa em PHTHISICA ou DIPHTHONGO, por que não adoptarmos JOSEPH
com valor de "José"? Si adoptamos ABRAHÃO e JEHOVAH, por que não JOHÃO,
que em latim é JOHANNES? E si adoptamos RACHEL e MALACHIAS, por que não
JOACHIM? Claro que, nesse caso, as equivalencias femininas seriam
JOSEPHA, JOACHINA e JOHANNA, pois nesta ultima reflectiria o "N"
geminado.
Não preconizo taes graphemas como norma, mas creio que o bom senso do
escriptor será sufficiente para deliberar sobre cada caso. Concluo
lembrando que vou incluindo as pertinentes alternativas no DICCIONARIO
ORTHOGRAPHICO, agora disponivel na nuvem attravez do link abbaixo. Até o
mez que vem!
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0
///
sábado, 3 de outubro de 2015
OUTUBRO/2015: ANNUVEANDO PARA DESANNUVEAR
Este mez só comparesço ao nosso blog de notas para communicar que venho
trabalhando na preparação dos archivos de texto que alguem me adjuda a
collocar na nuvem. Entre os titulos disponibilizados estão o TRACTADO DE
ORTHOGRAPHIA LUSOPHONA e a respectiva ampliação que resultou no actual
DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO, cujo contehudo pretendo
manter actualizado, isto é, desactualizado em relação ao "accordo"
vigente mas em dia com a interminavel e incansavel pesquisa que faço no
lexico vernaculo, garimpando os graphemas que possam ser
etymologicamente "complexificados", a fim de radicalizar uma tendencia
opposta à nivelação por baixo pretendida pelos reformistas de plantão.
Emquanto me despeço até a proxima postagem, deixo aos interessados o
link para accessar o menu das obras mattosianas disponiveis na nuvem.
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0
///
trabalhando na preparação dos archivos de texto que alguem me adjuda a
collocar na nuvem. Entre os titulos disponibilizados estão o TRACTADO DE
ORTHOGRAPHIA LUSOPHONA e a respectiva ampliação que resultou no actual
DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO, cujo contehudo pretendo
manter actualizado, isto é, desactualizado em relação ao "accordo"
vigente mas em dia com a interminavel e incansavel pesquisa que faço no
lexico vernaculo, garimpando os graphemas que possam ser
etymologicamente "complexificados", a fim de radicalizar uma tendencia
opposta à nivelação por baixo pretendida pelos reformistas de plantão.
Emquanto me despeço até a proxima postagem, deixo aos interessados o
link para accessar o menu das obras mattosianas disponiveis na nuvem.
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0
///
sábado, 29 de agosto de 2015
SEPTEMBRO/2015: DESUNIÃO FAMILIAR
Trez interessantes questões me foram propostas pelos leitores deste blog
de notas. A primeira diz respeito aos verbos da "familia" TRAHIR. Um
internauta cobra a seguinte explicação: Si todas as flexões onde occorre
hiato levam "H" nos "membros" da familia (ATTRAHIR, CONTRAHIR,
DISTRAHIR, EXTRAHIR, etc.) e si verbos de outras familias (CAHIR, SAHIR,
ESVAHIR) seguem esse paradigma, por que o mesmo não occorre com os das
familias que teem "U" em vez de "A" no radical, como FLUIR (e seus
familiares AFFLUIR, INFLUIR, etc.), CONTRIBUIR, CONSTITUIR, e assim por
deante?
Minha resposta é que a simples fonte latina não basta para explicar.
Verbos como TRAHIR e CAHIR teem matrizes em TRADERE e CADERE, mas SAHIR
vem de SALIRE e ESVAHIR ja tem formação vernacula, de ESVAESCER (que por
sua vez vem de ESVANESCER, que vem de EVANESCER, ou EX+VANESCER), com
troca do suffixo "ESCER" por "IR". A rigor, seria até admissivel a forma
EXVAHIR. A presença do "H", portanto, tem funcção ao mesmo tempo
phonetica e etymologica, justificada pela prosodia nos hiatos e pela
tradição escripta. Sempre cabe lembrar que, na terceira pessoa, como
occorre diphthongo em vez de hiato, o "H" desapparesce: CAE, SAE, TRAE,
ESVAE, bem como nas flexões CAIA, SAIA, TRAIA, ESVAIA. Quanto aos
radicaes vocalizados em "U", são da terminação latina "UERE", que deu
"UIR", sem nenhuma perda consonantal, dahi não levarem um "H" para
compensar. Pessoalmente, acho que o portuguez bem poderia, la attraz,
ter adoptado o "H" nos hiatos em geral, o que evitaria certas duvidas,
mas agora a tradição de seculos ja se firmou. Convem attentar para a
differença entre as graphias anterior e posterior a 1943: aquella que os
phoneticistas agora adoptam é "elle CONTRIBUI" (presente), "eu
CONTRIBUÍ" (preterito), emquanto aquella que adopto é "elle CONTRIBUE"
(presente), "eu CONTRIBUI" (preterito), ficando claro que, neste ultimo
caso, caberia bem um "H" em "CONTRIBUHI" que, infelizmente, não se
pensou em adoptar.
Si a familia TRAHIR é objecto dessa "trahição" etymologica, outras
familias suscitam duvidas entre os leitores, como a dos verbos em
SPIRAR. Si temos CON+SPIRAR, IN+SPIRAR, PER+SPIRAR, RE+SPIRAR, por que
desapparescem consoantes na composição com alguns prefixos, como "AD",
"EX", "SUB" e "TRANS"? Boa pergunta. No primeiro caso, o proprio latim
admittia duplicidade graphica: ASPIRAR e ADSPIRAR (analogamente a outros
casos prefixados em "AD+SP", como ASPECTO e ASPERGIR), donde a
possibilidade de graphar ASPIRADOR ou ADSPIRADOR, ASPECTO ou ADSPECTO.
Em outros casos, a tradição supprimiu o "S", como em EX(S)PIRAR e
TRANS(S)PIRAR. No caso de SU(B)SPIRAR, como em SU(B)SPEITAR
[SU(B)SPECTAR], houve suppressão do "B", differentemente de SUS+PENDER
ou SUS+TER, onde o "B" se transformou em "S" desde o latim.
Outra familia de reputação suspeita é a dos verbos em PUTAR, que nada
tem a ver com a puta ou prostituta, mas com o latim PUTARE que, si lhe
applicarmos todos os prefixos, dará verbos como APPUTAR, OPPUTAR e
SUPPUTAR, mas que nos interessa aqui por causa do verbo COMPUTAR,
existente no portuguez ao lado de CONTAR, que tem a mesma origem, ou
seja, dois filhos da mesma matriz, que não é meretriz mas tem um
legitimo e um bastardo. Ao bastardo refere-se o leitor que me pergunta
si não deveriamos, então, graphar COMPTAR, COMPTA, COMPTO,
COMPTABILIDADE, COMPTISTA, etc. A rigor, sim, como fazem os francezes,
que até differenciam COMPTE (conta) de CONTE (conto). Mas a tradição
escripta ja consolidou CONTAR para as duas accepções, numerica e
narrativa, de modo que não acho necessario haver trez formas (CONTAR,
COMPTAR e COMPUTAR) para a mesma palavra. Em todo caso, registrei as
alternativas no nosso diccionario.
Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.
///
de notas. A primeira diz respeito aos verbos da "familia" TRAHIR. Um
internauta cobra a seguinte explicação: Si todas as flexões onde occorre
hiato levam "H" nos "membros" da familia (ATTRAHIR, CONTRAHIR,
DISTRAHIR, EXTRAHIR, etc.) e si verbos de outras familias (CAHIR, SAHIR,
ESVAHIR) seguem esse paradigma, por que o mesmo não occorre com os das
familias que teem "U" em vez de "A" no radical, como FLUIR (e seus
familiares AFFLUIR, INFLUIR, etc.), CONTRIBUIR, CONSTITUIR, e assim por
deante?
Minha resposta é que a simples fonte latina não basta para explicar.
Verbos como TRAHIR e CAHIR teem matrizes em TRADERE e CADERE, mas SAHIR
vem de SALIRE e ESVAHIR ja tem formação vernacula, de ESVAESCER (que por
sua vez vem de ESVANESCER, que vem de EVANESCER, ou EX+VANESCER), com
troca do suffixo "ESCER" por "IR". A rigor, seria até admissivel a forma
EXVAHIR. A presença do "H", portanto, tem funcção ao mesmo tempo
phonetica e etymologica, justificada pela prosodia nos hiatos e pela
tradição escripta. Sempre cabe lembrar que, na terceira pessoa, como
occorre diphthongo em vez de hiato, o "H" desapparesce: CAE, SAE, TRAE,
ESVAE, bem como nas flexões CAIA, SAIA, TRAIA, ESVAIA. Quanto aos
radicaes vocalizados em "U", são da terminação latina "UERE", que deu
"UIR", sem nenhuma perda consonantal, dahi não levarem um "H" para
compensar. Pessoalmente, acho que o portuguez bem poderia, la attraz,
ter adoptado o "H" nos hiatos em geral, o que evitaria certas duvidas,
mas agora a tradição de seculos ja se firmou. Convem attentar para a
differença entre as graphias anterior e posterior a 1943: aquella que os
phoneticistas agora adoptam é "elle CONTRIBUI" (presente), "eu
CONTRIBUÍ" (preterito), emquanto aquella que adopto é "elle CONTRIBUE"
(presente), "eu CONTRIBUI" (preterito), ficando claro que, neste ultimo
caso, caberia bem um "H" em "CONTRIBUHI" que, infelizmente, não se
pensou em adoptar.
Si a familia TRAHIR é objecto dessa "trahição" etymologica, outras
familias suscitam duvidas entre os leitores, como a dos verbos em
SPIRAR. Si temos CON+SPIRAR, IN+SPIRAR, PER+SPIRAR, RE+SPIRAR, por que
desapparescem consoantes na composição com alguns prefixos, como "AD",
"EX", "SUB" e "TRANS"? Boa pergunta. No primeiro caso, o proprio latim
admittia duplicidade graphica: ASPIRAR e ADSPIRAR (analogamente a outros
casos prefixados em "AD+SP", como ASPECTO e ASPERGIR), donde a
possibilidade de graphar ASPIRADOR ou ADSPIRADOR, ASPECTO ou ADSPECTO.
Em outros casos, a tradição supprimiu o "S", como em EX(S)PIRAR e
TRANS(S)PIRAR. No caso de SU(B)SPIRAR, como em SU(B)SPEITAR
[SU(B)SPECTAR], houve suppressão do "B", differentemente de SUS+PENDER
ou SUS+TER, onde o "B" se transformou em "S" desde o latim.
Outra familia de reputação suspeita é a dos verbos em PUTAR, que nada
tem a ver com a puta ou prostituta, mas com o latim PUTARE que, si lhe
applicarmos todos os prefixos, dará verbos como APPUTAR, OPPUTAR e
SUPPUTAR, mas que nos interessa aqui por causa do verbo COMPUTAR,
existente no portuguez ao lado de CONTAR, que tem a mesma origem, ou
seja, dois filhos da mesma matriz, que não é meretriz mas tem um
legitimo e um bastardo. Ao bastardo refere-se o leitor que me pergunta
si não deveriamos, então, graphar COMPTAR, COMPTA, COMPTO,
COMPTABILIDADE, COMPTISTA, etc. A rigor, sim, como fazem os francezes,
que até differenciam COMPTE (conta) de CONTE (conto). Mas a tradição
escripta ja consolidou CONTAR para as duas accepções, numerica e
narrativa, de modo que não acho necessario haver trez formas (CONTAR,
COMPTAR e COMPUTAR) para a mesma palavra. Em todo caso, registrei as
alternativas no nosso diccionario.
Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.
///
sábado, 1 de agosto de 2015
AGOSTO/2015: ORTHOGRAPHIA E ORTHODOXIA
Ao preparar um capitulo inedito sobre poesia e orthographia para a
reedição de seu livro POESIA & UTOPIA: A FUNCÇÃO SOCIAL DA POESIA E DO
POETA, originalmente publicado em 2007 pelo sello paulistano
Escripturas, Carlos Felippe Moysés me contempla com a seguinte allusão:
{O acaso [...] levou-me a tomar conhescimento da verdadeira cruzada em
que o poeta brazileiro Glauco Mattoso vem-se empenhando, na tentativa de
nos convencer a adoptar a sua "orthographia etymologica". Fosse outro,
seria só mais uma extravagancia. Mas tractando-se de um poeta maior, a
quem apprendi a admirar desde os tempos do "Jornal Dobrábil" (na
orthographia então vigente), pensei: vae ver, orthographia meresce
alguma attenção. [...] Alem de passar a graphar [...] seus decasyllabos
escrupulosamente medidos e rhymados, [...] Glauco chegou a organizar um
formidavel DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO, ja na
quincta edição , [...] em cujas paginas de abertura esclaresce: "Um
diccionario tão especifico não teria utilidade apenas para seu auctor e
para aquelles que prefiram escrever pela norma mais classica, mas para
todos os estudiosos do idioma e de suas transformações historicas,
independentemente de tendencias conservadoras, reformadoras ou
restauradoras. Tracta-se, portanto, d'uma obra linguistica de interesse
geral". [...] Considerados os exemplos possiveis (o de Mario, o de
Pessoa, o de Glauco e outros mais), todos parescem confirmar o que ja se
sabe, quanto à substancia essencial do acto poetico: rebeldia,
insubmissão, inconformismo, com mais ou menos discreta, mais ou menos
espalhafactosa dose de humor e ironia. Necessidade de transgredir, em
summa, de luctar não só com as "palavras", como lembra Drummond, mas com
toda e qualquer lei ou regra "official", que cerceie a liberdade do
poeta. A grammatica é só uma das "leis" impostas pelo systema, e a
orthographia é talvez a mais innocente, a menos tyrannica de suas
"normas". Della é sempre possivel livrar-se, bastando para isso
dominal-a, a fim de submettel-a ao crivo da imaginação creadora e da
inventividade: engenho e arte, como dizia Camões. Orthographia, não sei
si chega a ser "gente", mas sei que é só metaphora. Rebellar-se contra
ella ou é acto gratuito, mero desconhescimento de causa, ou é
rebellar-se contra outra coisa. E manifestar a revolta profunda gerada
pelas tyrannias em relação às quaes nos resta pouco ou nada a fazer. A
não ser, de vez em quando, dar attenção a "alguma poesia", para que a
lingua commum continue à disposição de todos. Ou para manter acceso o
sonho de liberdade.}
No prefacio assignado por Jorge Sallum para meu livro POESIA VAGINAL:
CEM SONNETTOS SACANAS, recem lançado pelo sello Hedra, sou assim
analysado, sob o titulo "A grande sacanagem historica de ainda escrever
sonnettos":
{Uma das primeiras coisas a se notar é a retroimpregnação (para usar um
palavrão) da forma com a graphia. O sonnetto é uma forma antiga. Antiga
é a poesia em lingua portugueza. Antiga (na verdade, archaizante) é
então a graphia de Glauco Mattoso. [...] Mais importante, a graphia
archaizante gera nestes sonnettos um attrito, digamos, interno com a
thematica, o vocabulario e a syntaxe contemporaneos, depois que estes
tinham sido ja admoldados à forma fixa. [Phoneticamente graphando:]
"Sejamos francos: sexo é sujo. A pica / é suja. Uma buceta é também
suja. / Fudeu o dito cujo a dita cuja? / Juntou sujo com sujo:
justifica". A linguagem é directa, quasi colloquial, apesar da trama
sonora e das rhymas ricas como picca-justifica e suja-cuja . Dahi vem a
pista para a graphia, que é tambem sonoridade: não se tracta de
verdadeira escripta archaica, mas de uma parodia, posta a serviço da
densidade sonora. Dahi a versão original destes quattro versos ter muito
mais attritos sonoros do que a versão "limpa" accyma: "Sejamos francos:
sexo é sujo. A picca / é suja. Uma boceta é tambem suja. / Fodeu o dicto
cujo a dicta cuja? / Junctou sujo com sujo: justifica". O campo sonoro
do poema é marcado e/ou determinado pela aspereza e pela "espessura" de
suas consoantes recorrentes, "s", "j", "f", "x", reforçadas pela
predominancia da vogal fechada "u". O uso de novos "cc" em "dicto",
"dicta", "junctou", cria um som, "k(i)t", que é uma versão mais secca de
"x" ("x[i]s"), alem de augmentar a aspereza geral pelo augmento do
numero de consoantes (que são estructuraes), e particularmente pela
occorrencia de encontros consonantaes. O campo sonoro do poema, emfim,
fica mais aspero, mais "sujo".}
Para synthetizar as duas analyses, dizem que minha escripta desempenha,
ao lado de outros tropos e metaplasmos, o papel duma figura de linguagem
addicional que teria funcção essencialmente poetica: para Moysés, de
metaphora anarchizante; para Sallum, de parodia archaizante. Eu poderia
adduzir que um outro effeito tropico ou metaplastico da escripta
etymologica seria configurar aquillo que pode ser chamado de
"graphopopéa", no sentido de dar voz lyrica à morphologia das palavras,
assim como a onomatopéa a dá à phonetica e a prosopopéa à personificação
material ou animal.
Todas essas interpretações são procedentes, na medida em que traduzem
attitudes transgressivas a alguma norma imposta e generalizada. O
paradoxo, no meu caso (e vivo affirmando-me como paradoxal) seria que me
rebello contra a dictadura das reformas por meio duma reacção retrô, em
vez de me collocar em posição mais advançada ou vanguardista. Em outras
palavras, quando a orthodoxia é representada pela graphia official,
phonetica, a heterodoxia accaba sendo a adopção da graphia "prohibida",
etymologica, assim como o sonnetto accaba sendo revolucionario quando o
poema livre tornou-se obrigatorio.
Nada teria eu a objectar, ja que reconhesço as imputações anarchicas e
archaicas. Só tenho a resalvar que, ao contrario do que suggerem taes
posturas, não as assumo meramente em funcção da "adventura" poetica,
dramaturgicamente tragica ou comica, mas em funcção da vida, que não é
só theatro, embora o seja socialmente. Digo isto em defesa da verdadeira
fé com que professo a dicta "cruzada" contra o reformismo orthographico:
não estou brincando de imitar os classicos, nem só posando de
anticonvencional. Eu realmente accredito na minha excentricidade, não
apenas como comportamento individual do livre-pensador ou do
franco-attirador, mas como convocação collectiva a uma restauração
classicista. Não tem gente que crê na redempção humana pela lucta
classista? Pois bem, eu creio na recyclagem cultural pela lucta
classicista. Como diz o verso de Pessoa alludido por Moysés, "A
orthographia tambem é gente". Si minha patria é minha lingua, minha
cidadania é minha escripta, contra a qual nenhum Estado Novo, nenhuma
Nova Republica ou nenhum "accordo" academico tem poder legislador. Quem
estiver commigo que me siga. Quem estiver contra mim que me considere
quixotesco. Si eu for lido por pelo menos um fiel escudeiro, ja seremos
dois cavalleiros andantes. O resto é litteratura.
Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.
///
reedição de seu livro POESIA & UTOPIA: A FUNCÇÃO SOCIAL DA POESIA E DO
POETA, originalmente publicado em 2007 pelo sello paulistano
Escripturas, Carlos Felippe Moysés me contempla com a seguinte allusão:
{O acaso [...] levou-me a tomar conhescimento da verdadeira cruzada em
que o poeta brazileiro Glauco Mattoso vem-se empenhando, na tentativa de
nos convencer a adoptar a sua "orthographia etymologica". Fosse outro,
seria só mais uma extravagancia. Mas tractando-se de um poeta maior, a
quem apprendi a admirar desde os tempos do "Jornal Dobrábil" (na
orthographia então vigente), pensei: vae ver, orthographia meresce
alguma attenção. [...] Alem de passar a graphar [...] seus decasyllabos
escrupulosamente medidos e rhymados, [...] Glauco chegou a organizar um
formidavel DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO, ja na
quincta edição , [...] em cujas paginas de abertura esclaresce: "Um
diccionario tão especifico não teria utilidade apenas para seu auctor e
para aquelles que prefiram escrever pela norma mais classica, mas para
todos os estudiosos do idioma e de suas transformações historicas,
independentemente de tendencias conservadoras, reformadoras ou
restauradoras. Tracta-se, portanto, d'uma obra linguistica de interesse
geral". [...] Considerados os exemplos possiveis (o de Mario, o de
Pessoa, o de Glauco e outros mais), todos parescem confirmar o que ja se
sabe, quanto à substancia essencial do acto poetico: rebeldia,
insubmissão, inconformismo, com mais ou menos discreta, mais ou menos
espalhafactosa dose de humor e ironia. Necessidade de transgredir, em
summa, de luctar não só com as "palavras", como lembra Drummond, mas com
toda e qualquer lei ou regra "official", que cerceie a liberdade do
poeta. A grammatica é só uma das "leis" impostas pelo systema, e a
orthographia é talvez a mais innocente, a menos tyrannica de suas
"normas". Della é sempre possivel livrar-se, bastando para isso
dominal-a, a fim de submettel-a ao crivo da imaginação creadora e da
inventividade: engenho e arte, como dizia Camões. Orthographia, não sei
si chega a ser "gente", mas sei que é só metaphora. Rebellar-se contra
ella ou é acto gratuito, mero desconhescimento de causa, ou é
rebellar-se contra outra coisa. E manifestar a revolta profunda gerada
pelas tyrannias em relação às quaes nos resta pouco ou nada a fazer. A
não ser, de vez em quando, dar attenção a "alguma poesia", para que a
lingua commum continue à disposição de todos. Ou para manter acceso o
sonho de liberdade.}
No prefacio assignado por Jorge Sallum para meu livro POESIA VAGINAL:
CEM SONNETTOS SACANAS, recem lançado pelo sello Hedra, sou assim
analysado, sob o titulo "A grande sacanagem historica de ainda escrever
sonnettos":
{Uma das primeiras coisas a se notar é a retroimpregnação (para usar um
palavrão) da forma com a graphia. O sonnetto é uma forma antiga. Antiga
é a poesia em lingua portugueza. Antiga (na verdade, archaizante) é
então a graphia de Glauco Mattoso. [...] Mais importante, a graphia
archaizante gera nestes sonnettos um attrito, digamos, interno com a
thematica, o vocabulario e a syntaxe contemporaneos, depois que estes
tinham sido ja admoldados à forma fixa. [Phoneticamente graphando:]
"Sejamos francos: sexo é sujo. A pica / é suja. Uma buceta é também
suja. / Fudeu o dito cujo a dita cuja? / Juntou sujo com sujo:
justifica". A linguagem é directa, quasi colloquial, apesar da trama
sonora e das rhymas ricas como picca-justifica e suja-cuja . Dahi vem a
pista para a graphia, que é tambem sonoridade: não se tracta de
verdadeira escripta archaica, mas de uma parodia, posta a serviço da
densidade sonora. Dahi a versão original destes quattro versos ter muito
mais attritos sonoros do que a versão "limpa" accyma: "Sejamos francos:
sexo é sujo. A picca / é suja. Uma boceta é tambem suja. / Fodeu o dicto
cujo a dicta cuja? / Junctou sujo com sujo: justifica". O campo sonoro
do poema é marcado e/ou determinado pela aspereza e pela "espessura" de
suas consoantes recorrentes, "s", "j", "f", "x", reforçadas pela
predominancia da vogal fechada "u". O uso de novos "cc" em "dicto",
"dicta", "junctou", cria um som, "k(i)t", que é uma versão mais secca de
"x" ("x[i]s"), alem de augmentar a aspereza geral pelo augmento do
numero de consoantes (que são estructuraes), e particularmente pela
occorrencia de encontros consonantaes. O campo sonoro do poema, emfim,
fica mais aspero, mais "sujo".}
Para synthetizar as duas analyses, dizem que minha escripta desempenha,
ao lado de outros tropos e metaplasmos, o papel duma figura de linguagem
addicional que teria funcção essencialmente poetica: para Moysés, de
metaphora anarchizante; para Sallum, de parodia archaizante. Eu poderia
adduzir que um outro effeito tropico ou metaplastico da escripta
etymologica seria configurar aquillo que pode ser chamado de
"graphopopéa", no sentido de dar voz lyrica à morphologia das palavras,
assim como a onomatopéa a dá à phonetica e a prosopopéa à personificação
material ou animal.
Todas essas interpretações são procedentes, na medida em que traduzem
attitudes transgressivas a alguma norma imposta e generalizada. O
paradoxo, no meu caso (e vivo affirmando-me como paradoxal) seria que me
rebello contra a dictadura das reformas por meio duma reacção retrô, em
vez de me collocar em posição mais advançada ou vanguardista. Em outras
palavras, quando a orthodoxia é representada pela graphia official,
phonetica, a heterodoxia accaba sendo a adopção da graphia "prohibida",
etymologica, assim como o sonnetto accaba sendo revolucionario quando o
poema livre tornou-se obrigatorio.
Nada teria eu a objectar, ja que reconhesço as imputações anarchicas e
archaicas. Só tenho a resalvar que, ao contrario do que suggerem taes
posturas, não as assumo meramente em funcção da "adventura" poetica,
dramaturgicamente tragica ou comica, mas em funcção da vida, que não é
só theatro, embora o seja socialmente. Digo isto em defesa da verdadeira
fé com que professo a dicta "cruzada" contra o reformismo orthographico:
não estou brincando de imitar os classicos, nem só posando de
anticonvencional. Eu realmente accredito na minha excentricidade, não
apenas como comportamento individual do livre-pensador ou do
franco-attirador, mas como convocação collectiva a uma restauração
classicista. Não tem gente que crê na redempção humana pela lucta
classista? Pois bem, eu creio na recyclagem cultural pela lucta
classicista. Como diz o verso de Pessoa alludido por Moysés, "A
orthographia tambem é gente". Si minha patria é minha lingua, minha
cidadania é minha escripta, contra a qual nenhum Estado Novo, nenhuma
Nova Republica ou nenhum "accordo" academico tem poder legislador. Quem
estiver commigo que me siga. Quem estiver contra mim que me considere
quixotesco. Si eu for lido por pelo menos um fiel escudeiro, ja seremos
dois cavalleiros andantes. O resto é litteratura.
Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.
///
sábado, 4 de julho de 2015
JULHO/2015: O JOGO DE CINCTURA DA VELHA GAGÁ
Certa vez ouvi um argentino referir-se a Miami pronunciando com "I"
mesmo e não, como nós, "maiami". Achei extranho mas, parando para
pensar, concordei que, sendo mais politizados (portanto menos
colonizados), estariam certos aquelles que respeitam sua lingua natal.
Affinal, não são os francezes que chamam Glauber Rocha de "globê rochá"?
Pensando melhor, notei que ja fomos mais ciosos da lingua portugueza, a
julgar pela pronuncia de alguns nomes anglophonos. Aqui nunca dissemos
"colgueite" ou "palmolaive" quando fallavamos das marcas Colgate e
Palmolive. Os perfumes da Avon sempre foram annunciados pelo slogan
"Avon chama!", que nunca soou como "êivon". A emissora londrina era
"bebecê" mesmo e não "bibici". Si a CIA espionasse os computadores da
IBM, não seria a "ciaiei" na "aibiem". Logo, não haveria motivo para
chamar a NBA de "enbiei". A graxa de sapatos Nugget era "Nuguéte" e
nunca "Nâguet". Até marcas alternativas foram lançadas aqui, para
respeitar a nossa prosodia: em vez de "tough man", Taff Man"; em vez de
"hangover", Engov.
Provavelmente por culpa da internet, mas tambem por factores mais
geopoliticos (os adeptos da theoria da conspiração que o digam), hoje em
dia ficamos mais macaquinhos da anglophonia. Palavras impronunciaveis,
ainda que perfeitamente traduziveis, são teimosamente introduzidas entre
nós e macarronicamente repetidas a cada modismo cybernetico. A peor
dellas é, de longe, a maldicta "hashtag", que todo mundo pronuncia
mascando feito chiclette: "xexexegue". Um tal de "xexexegue" p'ra ca,
"xexexegue" p'ra la... Um sacco! Não querem dizer "anthyphen"? Não
querem dizer "cerquilha"? Não querem siquer dizer "sustenido", como nas
partituras? Mas no proprio inglez aquelle raio de signalzinho se chama
"number sign"! Pois chamem de "nâmber", então, si não quizerem
pronunciar "númber"! Mas não me venham mastigar aquelle xexelento
"xexexegue" como um velho gagá mastigando a dentadura! Que raiva! Meu
consolo é que, como todo modismo, essa mania vae desapparescer em breve,
como ja obsolesceram o orkut e a second life. Nada perco por esperar.
Outra conclusão a que se chega é aquella velha historia de que, em se
tractando de macaquear, sempre imitamos dos americanos as coisas ruins e
desprezamos as boas. A lingua ingleza não nos offeresce só exemplos
detestaveis como o erradissimo termo "paralympic", que deveria ser
"parolympic" até para elles. Ha tambem optimos exemplos de correcção
graphica, que deveriam ser observados pela macacada tupyniquim.
Meu companheiro Akira, que é professor de inglez, cansou de ver alumnos
habituados a ler a marca General Electric e, na hora de escrever, elles
só conseguem pôr" "eletric" no papel. Si escrevessemos "electricidade" e
"electrico", como antes das reformas, seria um erro a menos.
Para nosoutros, etymologistas convictos, resta estoutro consolo de que,
pelo menos, os mais attentos estudantes de inglez teem alguns graphemas
classicos como modello, adjudando a decorar as equivalentes formas
vernaculas. Assim, fica mais facil lembrar que "telephone",
"photographia", "philosophia" ou "physica" levam "PH", no caso de
hellenismos. Mas cuidado! Tambem levam "PH" palavras como "phantasma" e
"phantasia", embora elles sejam incoherentes, graphando "phantom" mas
admittindo o erroneo "fantasy"... No caso dos latinismos, tambem vale
alguma macaquice: "collection" como "collecção", "application" como
"applicação", "support" como "supporte", "occupy" como "occupar"... Mas
cuidado! Elles escrevem "literature" com um "T" só, quando o certo é
"litteratura"!
Cuidado tambem com latinismos typo "auctor" ou "auctoridade", que para
elles são "author" e "authority"! Si tivermos o devido discernimento, o
estudo do inglez pode ser muito util a quem pretenda seguir a norma
classica aqui practicada, digo, aqui no blog, não nesta bosta de paiz,
ou nesta "shita", como diriam os macaquinhos, que não distinguem Sheeta
de shit!
Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.
///
Assinar:
Postagens (Atom)