sábado, 5 de março de 2016

MARÇO/2016: AI, MEU PAE, POUPAE-ME DE TAES AIS!



Antes de entrar no thema deste mez, quero registrar o commentario do
leitor que se assigna Jack Pino: "Meu Deus... Este blog é maravilhoso...
Eu amo a velha orthographia! Doravante tentarei dominal-a e
apprendel-a!" Só posso estimular o Jack a entrar de sola nesse terreno,
que é vasto mas fascinante. Suggiro a leitura da parte theorica do
diccionario disponivel no link que vae no final desta postagem.


Outro attento leitor deste bloguinho de notas questiona-me accerca do
diphthongo "AE". Elle quer entender por que era com "E" na orthographia
tradicional e por que ficou com "I" na actual graphia, como nos pluraes
de singulares terminados em "AL" ou em flexões verbaes typo GRAPHAE,
FALLAE, CAE e SAE.


Então vamos la. Primeiro transcrevo o que diz Julio Nogueira, em seu
MANUAL ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO, sobre as trez formas de representar o
diphthongo ("AE", "AI" e "AY"), depois commento.


{Na segunda pessoa do plural do imperativo dos verbos da primeira
conjugação latina, cahindo o "T", formou-se normalmente o diphthongo
"AE", que persistiu: AMATE - AMAE, LAUDATE - LOUVAE. Nas formas dos
verbos CAHIR, SAHIR, ATTRAHIR, CONTRAHIR escreve-se o diphthongo final
"AE": CAE, SAE, ATTRAE, em opposição a outras em que o diphthongo não é
final: CAIAM, SAIA, ATTRAIAS, CONTRAIAM. Tenha-se como preceito de cunho
practico que se escreve "AE" no plural das palavras que no singular
terminam em "AL": SAES, REAES, ANIMAES, LARANJAES, TAES, LEGAES,
NATURAES, etc. Escreve-se ainda esse diphthongo nas palavras PAE e CAES
(substantivos). [...] Na segunda pessoa do plural do presente do
indicativo dos verbos da primeira conjugação muitos escrevem "AI", como
nas formas: AMAIS, CANTAIS, LOUVAIS. Essa graphia tem a virtude de
evitar certas homographias: LEAIS (verbo) [sic]; LEAES (plural de LEAL),
ANIMAIS (verbo); ANIMAES (plural de ANIMAL). Ha, porem, indecisão,
preferindo alguns escrever AMAES, LOUVAES, VAES. O fundamento que
appresentam para isso é que estas formas em "AES" não proveem
directamente das formas latinas em "ATIS", sinão das do portuguez
anteclassico em "ADES": AMADES, LOUVADES, nas quaes a queda do "D"
determinou o encontro "AE" e não "AI". Esse respeito à graphia classica
não se explica, uma vez que as demais alterações operadas pela
disciplina grammatical, são geralmente acceitas. Cahindo o "D" de
AMADES, VEJADES, etc. o "E" podia egualmente ser transformado em "I" na
graphia, como o foi na pronuncia. Os que preferem AMAES devem escrever
tambem SOES (SODES) e não SOIS. As formas anteclassicas passaram por
alterações mais profundas que a simples graphia. Vemos o "I" intervir
para evitar o hiato: SABEDE - SABEE - SABEI. Como recusar que elle
reapparesça, não tanto por amor da etymologia, que pouco importa [sic],
mas como uma generalização de todo poncto razoavel? A verdade, porem, é
que uma grande corrente prefere o diphthongo "AE". Na segunda pessoa do
plural do presente do subjunctivo dos verbos da segunda, terceira e
quarta conjugação latina da queda do "T" resultou egualmente o
diphthongo "AI": DEBEATIS - DEVAIS, LEGATIS - LEAIS [sic], VESTIATIS -
VISTAIS. Da queda do "D" intervocalico resultou ainda o diphthongo "AI"
em VAIS, VAI, (VADIS, VADIT) e da do "G" em MAIS (MAGIS). Em casos de
attracção do "I" forma-se naturalmente o diphthongo: RABIA - RAIVA,
RADIU - RAIO, APIU - AIPO, FACIA - FAIXA. O diphthongo "AI" resulta
ainda do allongamento compensatorio do "A": CAIXA, de CAPSA, onde a
queda do "P" que com o "S" transcrevia a duplice grega PSI determinou o
phenomeno de diphthongação. Escreve-se "AI" em palavras provenientes da
lingua indigena: AIPIM, CAIPORA, CAITETU. "AI" é a escripta normal de
formas verbaes, quando o diphthongo não é final. Assim: SAIAM, CAHIAS
etc. Tenha-se como orientação de cunho practico que no inicio ou syllaba
media da palavra se escreve "AI" e não "AE": ALFAIATE, AIA, AIROSO,
FAIA, BAILE, etc. [...] O desuso em que vae cahindo o "Y" como
subjunctiva tende a transformar a representação "AY" em "AI", ainda
quando o "Y" seja etymologico: BAIONETA (de BAYONNE). Ja o francez
representa o duplo "I" desta palavra por um "I": BAIONNETTE. O "Y"
subsiste como final do triphthongo "UAY" em palavras americanas: GUAYACA
(do quichua), PARAGUAY, URUGUAY, URUGUAYANA, JACEGUAY.}


Do meu poncto de vista a questão é elementar: si a finalidade da
orthographia não é (nem deve ser) macaquear a pronuncia, e si o proprio
Nogueira reconhesce que a subjunctiva em "E" vem da matriz latina na
maioria dos casos, não ha por que admittir excepções quando a desinencia
verbal venha de "ATIS" quando não de "ATE", até por causa da desinencia
anteclassica "ADES". Um dos exemplos dados por elle nem se justifica,
pois do verbo LER vem LEIAES e não LEAES, que só vale como plural de
LEAL. Addemais, a homographia não é algo tão determinante que exija
qualquer "virtude" para ser evitada. Mais importante é evitar a confusão
graphica que se estabelesceria caso mixturassemos as vogaes subjunctivas
"E", "I" e "Y", inclusive porque não faria sentido escrever AYPIM ou
CAYPORA com "I" ao lado de GUAYCURU ou JACEGUAY com "Y". Tudo se resume
neste poncto: si acceitassemos que uma "tendencia" a substituir o "E"
pelo "I" influisse na escripta, estariamos abrindo mão da forma
tradicional em favor da reformada pelos phoneticistas, o que não
admitto. Si admittisse, por coherencia eu teria que começar a escrever
BURRACHA, BUCETA, BUTÃO, CULHÃO, FUDIDO, FUGÃO, TUMATE, BIXIGA, DILICIA,
PINICO, PIRIQUITO, PIRU, VIADO, formas colloquiaes só acceitaveis quando
figurassem num texto imitativo da falla popular, e mesmo assim entre
nordestinos e cariocas, por exemplo, mas não entre paulistas e gauchos.
Orthographia existe para padronizar a escripta do idioma e para
preservar-lhe a integridade ao longo da historia, não para tentar
accommodar a escripta aos regionalismos dialectaes, variaveis no espaço
e no tempo. Emfim, o "amor à etymologia" não importa tão pouco quanto
allegou Nogueira, elle proprio defensor da tradição mas hesitante quando
fazia concessões a alguma "tendencia" simplificadora.


Desconsideremos, pois, os ponctos vacillantes da explanação de Nogueira
e fiquemos com o grammatico Eduardo Carlos Pereira, que só admittia, nos
finaes de palavras, a subjunctiva com "I" em rarissimas excepções, como
a interjeição AI! e os extrangeirismos SINAI, SHANGHAI ou HAIKAI.
Sejamos, em summa, minimamente rigorosos.


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.


https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0


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sábado, 30 de janeiro de 2016

FEVEREIRO/2016: ORTHOGRAPHIA QUANTICA


Uma attenta consulente deste blog de notas me questiona sobre um poncto
que nunca é demais repassar. Diz ella: "Glauco, volta e meia você se
refere a um graphema, mas a definição de graphema que encontro nos
diccionarios não me satisfaz. Pode esclarescer?"


Então vamos la. Defino graphema como um morphema padronizavel de accordo
com o systema orthographico que adoptamos. Exemplificando, temos dois
morphemas (um latino e um grego) para representar a mesma idéa: SCRIP e
GRAPH, compostos de cinco phonemas, ou, em portuguez claro, duas
palavras nucleares, ambas compostas de cinco lettras. Pois bem: cada um
desses morphemas será um graphema na medida em que mantemos ou alteramos
o "P" e o "PH", respectivamente. Assim, si adoptarmos o systema
phonetico, os graphemas serão SCRI e GRAF, com quattro lettras; si
adoptarmos o systema etymologico, os graphemas serão SCRIP e GRAPH, com
cinco lettras. Fica evidente que o graphema funcciona como um modello ou
paradigma applicavel a quaesquer vocabulos da mesma familia: pelo
systema phonetico, "eSCRItura", "manuSCRIto", "inSCRIção",
"esferoGRÁFica", "fotóGRAFo", "GRAFoscopia"; pelo systema etymologico,
"eSCRIPtura", "manuSCRIPto", "inSCRIPção", "espheroGRAPHica",
"photoGRAPHo", "GRAPHoscopia". Notem como o graphema, que gryphei em
caixa alta, tem posição variavel mas forma invariavel em cada
composição. Isto quer dizer que um graphema pode ser prefixo, infixo ou
suffixo, conforme o caso. Assim, "HYPO", "PREHEN" e "DELLA" são
graphemas etymologicos, respectivamente, nas palavras HYPOTHESE,
COMPREHENSÃO e PISCADELLA. Ficou claro? Pois é, às vezes os diccionarios
dão apenas uma accepção ao verbetar certos termos. No caso, alludem a
uma unidade de escripta, que pode ser uma lettra ou uma figura symbolica
(ideogramma), mas se esquecem de que a tal "unidade" pode ser composta
de duas (digramma), trez (trigramma) ou mais lettras, como nos exemplos
que accabamos de examinar.


Ainda a proposito de criterios particulares para quantificar e
qualificar casos de lettras a mais ou a menos, recebi de outro
consulente a seguinte questão: "Glauco, si você escreve CANNELLA com
duplo "N" e duplo "L" e CANNETA com "T" simples, por que recommenda
SONNETTO como QUARTETTO ou TERCETTO? Não seria o caso de padronizar as
desinencias ETTA/ETTO?"


Respondo que são coisas differentes. Como ja expliquei, o graphema
"ETTA/ETTO" só occorre em casos analogos a termos appropriados do
italiano, como LAMBRETTA, VENDETTA, CORETTO e LIBRETTO. Ja o graphema
"ELLA" é bem mais generalizado, pois deriva directamente do latim, como
em CIDADELLA e PARCELLA. A forma masculina "ELLO" é menos frequente mas
tambem occorre, como em CABELLO ou PELLO.


Na mesma linha, pergunta outro leitor: "Glauco, por que você acceita
TORNOZELO com um só L mas recommenda COTOVELLO com dois? Nenhuma dessas
palavras veiu prompta do latim. Por que não uniformizar-lhes a graphia?"


Respondo que em alguns casos sigo a praxe consuetudinaria por pura
inercia. Todos os diccionarios registravam COTOVELLO com "L" duplo mas
simplificavam o "L" de TORNOZELO, talvez devido ao latinismo da primeira
(CUBITUS/CUBITELLUS) e ao hellenismo da segunda (TORNOS+OZOS),
theoricamente insufficiente para explicar a desinencia latina "ELLO".
Por analogia, poderiamos admittir o graphema "ELLO" para ambas, sem
grande violencia contra a tradição vernacula, como no caso de CABELLO e
PELLO (respectivamente, CAPILLUS e PILUS, mas tambem PILLUS); acho,
porem, que a materia deve ficar a criterio de cada escriptor.


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.


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sábado, 9 de janeiro de 2016

JANEIRO/2016: SINGELLAS QUERELLAS


Questão relativamente simples occorre-me trazer à pauta deste blog de
notas, por compta de algumas duvidas levantadas pelos mais pingados dos
quattro internautas que me consultam. Embora seja poncto pacifico que o
suffixo latino "ELLA" tem funcção diminutiva em casos como CIDADELLA,
TABELLA, CANNELLA ou RODELLA, o systema mixto não extendia tal conceito
às desinencias verbaes "ADELLA" e "IDELLA", tractadas pelos grammaticos
e lexicographos como meros graphemas substantivados, compostos de
participios aos quaes se pospunha um suffixo dicto vernaculo, "ELA", sem
geminação do "L". Assim, de verbos como APPALPAR, ESCARRAR, ESPIAR,
OLHAR, LAMBER, MORDER, CUSPIR ou SACUDIR derivariam substantivos como
APPALPADELA, ESCARRADELA, ESPIADELA, e assim por deante.

Ora, está claro que cada um desses substantivos é forma alternativa do
respectivo diminutivo, a saber, APPALPADINHA, de APPALPADA;
ESCARRADINHA, de ESCARRADA; ESPIADINHA, de ESPIADA, donde a perfeita
applicabilidade do suffixo latino "ELLA" addeante mencionado. Temos,
portanto, como formas absolutamente legitimas as dos substantivos
APPALPADELLA, ESCARRADELLA, ESPIADELLA, etc. extensivos a todos os casos
analogos. Ja tractei de verbetar, no DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO, os
exemplos mais usuaes ou utilizaveis.

Cumpre a nós, etymologistas, attentar para quaesquer manobras
simplificadoras dos phoneticistas que, sempre obcecados pela graphia
reformada, escamoteiam os vinculos mais tradicionaes sob o pretexto de
que taes ou quaes vocabulos se teriam formado ja no portuguez e por isso
dispensariam pospositivos latinos na composição de seus derivados. Faço
questão de conclamar os collegas de lucta philologica em torno desse
poncto que, si para quem practicava o systema mixto prequarentista era
irrelevante, para nosoutros é cavallo de battalha.

Outra questão simples é o suffixo "ETTO" em palavras de origem italiana,
quando confrontado com seu homophono vernaculo "ETO", que tem funcção
tambem diminutiva, a exemplo do supracitado "ELLA". Vocabulos como
CORETTO, QUARTETTO, TERCETTO, DUETTO ou LIBRETTO são inquestionaveis,
bem como aquelles em que não occorre o duplo "T", como FOLHETO,
PAMPHLETO, POEMETO, CARRETO, GRAVETO ou CHLORETO. Só me chegam duvidas
quanto a dois casos: QUINCTETTO e SONNETTO. No primeiro, cabe o
hybridismo entre o latim QUINCTUS e o suffixo italiano, ja que o
graphema comparesce em QUINCTILHA, QUINCTESSENCIA, QUINCTUPLO ou
QUINCTANNISTA e seria incoherente supprimir o "C" apenas em QUINTETTO.
No segundo, ao contrario do que suppuzeram alguns, não practico o
hybridismo entre o italiano SONETTO e o inglez SONNET. Succede que o
proprio italiano, onde a palavra foi cunhada, tem a forma antiga
SONNETTO, que perdeu um "N" e, ja no portuguez, foi simplificada como
SONETO pelo nosso systema mixto. Pessoalmente não fiz questão de evitar
tal forma por volta de 1999, quando comecei a compor copiosamente nesse
molde, mas hoje penso que seja acconselhavel restaurar ambas as
geminações, do "N" e do "T", para manter a coherencia com QUARTETTO e
TERCETTO, sem destoar da forma ingleza SONNET.

Para finalizar por este mez, transcrevo um trecho da mensagem enviada
pelo mesmo Felippe que ja me entrevistou neste blog de notas. Em
seguida, passo a responder.

{A duvida que me veiu é a seguinte: Percebemos que o digrapho "CH",
então, recebeu em nossa lingua os valores phoneticos da guttural surda
"K" e da sibilante palatizada surda "X", como em "CHALÉ" ou "CHICARA";
logo, seria errado attribuir a elle, o digrapho "CH", outro valor
phonetico que não permanesceu em nossa lingua pela tradição, no intuito
de tornar algumas outras palavras mais "latinizadas", como em
"CHIRURGIA" e "ARCHEBISPO"? Ou seja, seria errado darmos ao digrapho
"CH" o valor de "S", como em "SAPO"? Apoz ponderar, cheguei á conclusão
que sim! Seria errado attribuir um valor phonetico que não nos foi
legado pela tradição... Porem, ao analysar o DICCIONARIO DA LINGUA
PORTUGUEZA de MORAES SILVA, de 1789, vejo que la foi registrada a forma
"CHIRURGIA" como synonymo de "CIRURGIA"! Não sei si essa palavra foi
registrada assim por outros lexicographos pois meu conhescimento é
escasso, mas, com base neste diccionario em especifico, não teriamos
respaldo para então attribuir ao "CH" tambem o som de "S" e graphar
"ARCHEBISPO" e "CHIRURGIA", com seus respectivos derivados? Claro que o
dicto DICCIONARIO data de 1789, mas isso seria um empecilho?}

Minha resposta: Sim, seria um empecilho, não pela data, mas pela idéa de
que Moraes haja verbetado ambas as formas para acceitar a pronuncia
sibilante do digramma "CH". O que Moraes fez foi acceitar algo que, em
nossos tempos de phoneticismo, seria equivalente a registrar "CIRURGIA"
ao lado de "QUIRURGIA" para validar ambas. Ora, sabemos que hoje ninguem
usaria "QUIRURGIA" (ainda que se use "QUIROPRAXIA" para CHIROPRAXIA), de
modo que restaria apenas a forma usual, "CIRURGIA", entre as poucas
excepções à escripta etymologica e à pronuncia guttural do digramma
grego "CH". Em tempo: digo "digramma" e não "digrapho", que é outra
coisa. (Digraphia significa duas formas para a mesma palavra, como CYSTO
e KYSTO ou MYRTA e MURTA) Antes de proseguir, transcrevo um paragrapho
do MANUAL ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO de auctoria do philologo Julio
Nogueira, que data da decada de 1920. Depois concluo o meu commentario.

{Por vezes uma alteração prosodica determinou a perda do "H". A
influencia do "E" e do "I" posteriores ao "C" fez-se sentir, apesar da
intercorrencia do "H", em ARCEBISPO, ARCEBISPADO, ARCEDIAGO,
ARCEDIAGADO, ARCIPRESTE, ARCIPRESTADO. Reapparesce o "H" e, com elle, o
som guttural na formação erudita - ARCHIEPISCOPAL. Foi ainda a mesma
influencia que transformou a prosodia e a escripta de CHIRURGIA em
CIRURGIA (CIRURGIÃO, CIRURGICO). A explicação é que estas palavras se
vulgarizaram ao passo que as demais, pela sua applicação erudita,
estiveram fora do alcance dessa chymica popular da linguagem. Outro
exemplo se encontra em CATECHISMO, que se pronunciava dando ao "CH"
correspondente ao chi o valor de "KÊ", ainda conservado em CATECHESE,
CATECHIZAR. Mas a acção popular reduziu o "KÊ" para "CÊ" e da pronuncia
CATECISMO resultou essa graphia. Cabe ainda mencionar a graphia
BATRACIOS, indicadora de uma prosodia diversa da rigorosamente
etymologica: BATRACHIOS.}

Concluindo, meu attento Felippe, embora eu não seja enthusiasta das
influencias prosodicas na orthographia, devo acceitar taes excepções
como aquillo que de facto são: excepções, portanto raras e plausiveis.
Assim, você accertou ao suppor que seria absurdo extender a graphia "CH"
a taes casos, si a pronuncia a distorceu. Para mim, um dilemma ainda
maior que a digraphia entre CIRURGIA e CHIRURGIA é a homographia entre
CHORO (canto) e CHORO (pranto), que, para peorar, não resulta em
homophonia! Isso levou à acceitação da excepção CORO para a primeira
forma, mas cheguei a propor, radicalmente, a forma KHORO para
differenciar de CHORO, como ja commentei neste blog. Affinal, temos
outros casos de hellenismos graphados com "K", como KALEIDOSCOPIO, KOSMO
ou KYSTO, é ou não é? Continue levantando essas lebres, Felippe, para
que possamos mactar varios coelhos com uma cajadada!

Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.

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sábado, 28 de novembro de 2015

DEZEMBRO/2015: INTERLIGAÇÕES INTERNAUTICAS

Instado por um leitor deste blog de notas, respondo sobre uma
interessante particularidade na assimilação duma consoante final de
prefixo pela inicial do morphema pospositivo. Tracta-se do prefixo INTER
deante de palavra iniciada por "L". O leitor me questiona si, tal como
occorre com INTELLIGIR (INTER+LIGIR), não caberia o mesmo em relação a
INTERLIGAR ou INTERLOCUTOR. De facto, coherentemente com COLLIGIR e
COLLIGAR (CON+L), haveria logica nessa assimilação que, entretanto, só
occorre nos cognatos de INTELLIGIR, como INTELLIGENCIA ou INTELLECTO.
Não convem generalizar aquillo que no proprio latim paresce ser
excepção, ja que, para INTERLOCUTOR, a matriz latina seria INTERLOCUTUS,
de INTERLOQUOR. Portanto, acho "forçação de barra" escrevermos
INTELLIGAÇÃO ou INTELLOCUÇÃO, embora sejam correctas as formas
COLLIGAÇÃO e COLLOQUIO.

Outro leitor colloca uma questão absolutamente nova: sahiu nos States a
designação scientifica para enquadrar tanta gente dependente do cellular
a poncto de não conseguirem ficar sem olhar para elle siquer por alguns
minutos. Essa especie de "syndrome de abstinencia" ou de vicio
technologico ja tem nome: NOMOPHOBIA. Succede que, pelas praxes da
composição classica, o correcto é cunhar termos scientificos só com
elementos gregos. Assim, para compormos um neologismo allusivo a alguma
phobia que se queira baptizar, teriamos que achar o equivalente grego
para aquillo de que temos medo ou adversão. No caso, o que ja existe no
grego é NOMO, porem com dois significados distinctos. Vejam como esse
graphema apparesce no meu DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO:

+NOMO+ [+NOMIA+] (1) "lei", "territorio" em NOMOGRAPHIA, AUTONOMIA
+NOMO+ (2) "pastagem" em NOMOPHYTA

Ora, pergunta meu leitor, que é que isso tem a ver com aquella compulsão
dos portadores dos taes apparelhinhos de telephonia movel, que ja
viraram minicomputadores portateis? O problema é que os americanos teem
mania de truncar quaesquer palavras, na ansia de abbreviar termos muito
correntes ou de uso commercial, tal como fizeram com HI-FI (HIGH
FIDELITY) ou WI-FI (WIRELESS FIDELITY), pouco se importando si as
palavras são cortadas sem deixar syllabas ou mesmo phonemas inteiros.
Dahi que, para a expressão "NO MOBILE" (privação do cellular), não
hesitaram e crearam "NO-MO", donde NOMOPHOBIA. Uma barbaridade, em
termos de respeito à etymologia, mas que paresce natural para os
psychologos que diagnosticam o tal disturbio de comportamento em cada
vez mais pacientes. Fazer o que? A mim cumpre registrar o neologismo e
convidar nossos companheiros de etymologismo à reflexão. E ahi,
twitteiros? Acham vocês que são todos nomophobicos? Ou conseguem deixar
de lado o tal equipamento vital para uma virtual pausa meditativa?
Emquanto vocês pensam, aqui deixo o link para meu menu na nuvem, onde
podem achar o DICCIONARIO e outras obras de eventual interesse.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NOVEMBRO/2015: INCOMPTAVEIS INCOHERENCIAS


Ha pouco tive occasião de explicar, neste blog de notas, como o verbo
latino COMPUTARE deu CONTAR em portuguez, passando pela forma
hypothetica COMPTAR, e como os francezes resolveram a questão,
reservando COMPTAR (COMPTER) para fazer COMPTAS e deixando CONTAR
(CONTER) para narrar CONTOS. Nosso idioma perdeu a classica
opportunidade de adoptar a subtil differenciação, por isso cahimos, pelo
systema mixto que precedeu a reforma phonetica da decada de 1940, no
actual estado de homographia simplista que, em vez de simplificar,
confundiu e... complicou.

Ja que frequentemente alludimos aos francezes, importa salientar que
Portugal resistiu mais renhidamente à simplificação phoneticista
justamente por causa da proximidade e da influencia da cultura
francophona e gallicista, mas accabou capitulando, como nós, à maldicta
vizinhança hispanica, que tanto nos prejudica a comprehensão dos
phenomenos etymologicos. Nada tenho contra a cultura hispanoamericana em
si, com sua rica e diversificada litteratura, mas sim contra o principio
linguistico que rege aquella orthographia, fique claro. O mesmo vale
para a lingua italiana, descendente que sou do paiz da bota... Mas vamos
aos factos.

Hoje minha reflexão é sobre dois termos em que temos equivalencia
franceza e sobre as consequencias logicas desse parallelismo. Tracta-se
das palavras BOTA e COTTA. Ambas teem forma commum no francez: BOTTE e
COTTE. Por que, então, a digraphia do portuguez?

No sentido do revestimento de malha usado pelos cavalleiros medievaes
nas armaduras, COTTA bem differe de COTA (parcella), que aliaz devia ser
graphada QUOTA, como QUOTAR, QUOTEJAR, QUOTIDIANO ou QUATTORZE. A
questão, nesse caso, seria esta: si COTTA era graphia correntemente
practicada, por que não admittirmos BOTTA, BOTTINA, inclusive para
distincção entre as flexões do verbo BOTAR, que vem do antigo francez
BOTER, que por sua vez se distingue de BOTTE?

Isso nos leva a outra questão, egualmente pertinente. A desinencia
"OTTE", como "ETTE", quando apportuguezada, costuma resultar num simples
"OTA" ou "ETA", caso de MARMOTTE (MARMOTA), GAVOTTE (GAVOTA), CALOTTE
(CALOTA) e CHARLOTTE (CARLOTA), ou SILHOUETTE (SILHUETA), ROULETTE
(ROLETA), GAZETTE (GAZETA) e JULIETTE (JULIETA), e o "T" geminado só se
mantem quando a palavra conserva a forma original, como em PLAQUETTE,
MANCHETTE ou CHARRETTE. Assim tambem occorre comparativamente a formas
italianas equivalentes, como GAZZETTA ou GIULIETTA. Seria o caso de
radicalizarmos, nós, etymologistas, na insistencia de usar graphemas
como BOTTA, MARMOTTA, GAZETTA ou JULIETTA?

Minha opinião tende a acceitar uma relativa simplificação, que se
justifica por não ser resultante do arbitrio immediatista de meia duzia
de academicos e sim da tradição escripta, mas sempre admittindo a
adopção do duplo "T" quando implicar evidente utilidade diacritica, como
no caso de COTTA e QUOTA ou de BOTTA e BOTAR, coherentemente com COMPTAR
e CONTAR.

Outra reflexão sobre as inevitaveis incoherencias com as quaes
convivemos (mesmo si não tivessemos os maldictos phoneticistas para
attrapalhar) é sobre trez dos nomes proprios mais communs da lingua
portugueza: José, João e Joaquim. Si adoptamos JACOB, DAVID ou NAZARETH
com valor phonetico de "Jacó", "Davi" e "Nazaré", e si acceitamos que o
"PH" não soa em PHTHISICA ou DIPHTHONGO, por que não adoptarmos JOSEPH
com valor de "José"? Si adoptamos ABRAHÃO e JEHOVAH, por que não JOHÃO,
que em latim é JOHANNES? E si adoptamos RACHEL e MALACHIAS, por que não
JOACHIM? Claro que, nesse caso, as equivalencias femininas seriam
JOSEPHA, JOACHINA e JOHANNA, pois nesta ultima reflectiria o "N"
geminado.

Não preconizo taes graphemas como norma, mas creio que o bom senso do
escriptor será sufficiente para deliberar sobre cada caso. Concluo
lembrando que vou incluindo as pertinentes alternativas no DICCIONARIO
ORTHOGRAPHICO, agora disponivel na nuvem attravez do link abbaixo. Até o
mez que vem!

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sábado, 3 de outubro de 2015

OUTUBRO/2015: ANNUVEANDO PARA DESANNUVEAR

Este mez só comparesço ao nosso blog de notas para communicar que venho
trabalhando na preparação dos archivos de texto que alguem me adjuda a
collocar na nuvem. Entre os titulos disponibilizados estão o TRACTADO DE
ORTHOGRAPHIA LUSOPHONA e a respectiva ampliação que resultou no actual
DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO, cujo contehudo pretendo
manter actualizado, isto é, desactualizado em relação ao "accordo"
vigente mas em dia com a interminavel e incansavel pesquisa que faço no
lexico vernaculo, garimpando os graphemas que possam ser
etymologicamente "complexificados", a fim de radicalizar uma tendencia
opposta à nivelação por baixo pretendida pelos reformistas de plantão.
Emquanto me despeço até a proxima postagem, deixo aos interessados o
link para accessar o menu das obras mattosianas disponiveis na nuvem.


https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQmyutQU6Bnha?dl=0


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sábado, 29 de agosto de 2015

SEPTEMBRO/2015: DESUNIÃO FAMILIAR

Trez interessantes questões me foram propostas pelos leitores deste blog
de notas. A primeira diz respeito aos verbos da "familia" TRAHIR. Um
internauta cobra a seguinte explicação: Si todas as flexões onde occorre
hiato levam "H" nos "membros" da familia (ATTRAHIR, CONTRAHIR,
DISTRAHIR, EXTRAHIR, etc.) e si verbos de outras familias (CAHIR, SAHIR,
ESVAHIR) seguem esse paradigma, por que o mesmo não occorre com os das
familias que teem "U" em vez de "A" no radical, como FLUIR (e seus
familiares AFFLUIR, INFLUIR, etc.), CONTRIBUIR, CONSTITUIR, e assim por
deante?


Minha resposta é que a simples fonte latina não basta para explicar.
Verbos como TRAHIR e CAHIR teem matrizes em TRADERE e CADERE, mas SAHIR
vem de SALIRE e ESVAHIR ja tem formação vernacula, de ESVAESCER (que por
sua vez vem de ESVANESCER, que vem de EVANESCER, ou EX+VANESCER), com
troca do suffixo "ESCER" por "IR". A rigor, seria até admissivel a forma
EXVAHIR. A presença do "H", portanto, tem funcção ao mesmo tempo
phonetica e etymologica, justificada pela prosodia nos hiatos e pela
tradição escripta. Sempre cabe lembrar que, na terceira pessoa, como
occorre diphthongo em vez de hiato, o "H" desapparesce: CAE, SAE, TRAE,
ESVAE, bem como nas flexões CAIA, SAIA, TRAIA, ESVAIA. Quanto aos
radicaes vocalizados em "U", são da terminação latina "UERE", que deu
"UIR", sem nenhuma perda consonantal, dahi não levarem um "H" para
compensar. Pessoalmente, acho que o portuguez bem poderia, la attraz,
ter adoptado o "H" nos hiatos em geral, o que evitaria certas duvidas,
mas agora a tradição de seculos ja se firmou. Convem attentar para a
differença entre as graphias anterior e posterior a 1943: aquella que os
phoneticistas agora adoptam é "elle CONTRIBUI" (presente), "eu
CONTRIBUÍ" (preterito), emquanto aquella que adopto é "elle CONTRIBUE"
(presente), "eu CONTRIBUI" (preterito), ficando claro que, neste ultimo
caso, caberia bem um "H" em "CONTRIBUHI" que, infelizmente, não se
pensou em adoptar.


Si a familia TRAHIR é objecto dessa "trahição" etymologica, outras
familias suscitam duvidas entre os leitores, como a dos verbos em
SPIRAR. Si temos CON+SPIRAR, IN+SPIRAR, PER+SPIRAR, RE+SPIRAR, por que
desapparescem consoantes na composição com alguns prefixos, como "AD",
"EX", "SUB" e "TRANS"? Boa pergunta. No primeiro caso, o proprio latim
admittia duplicidade graphica: ASPIRAR e ADSPIRAR (analogamente a outros
casos prefixados em "AD+SP", como ASPECTO e ASPERGIR), donde a
possibilidade de graphar ASPIRADOR ou ADSPIRADOR, ASPECTO ou ADSPECTO.
Em outros casos, a tradição supprimiu o "S", como em EX(S)PIRAR e
TRANS(S)PIRAR. No caso de SU(B)SPIRAR, como em SU(B)SPEITAR
[SU(B)SPECTAR], houve suppressão do "B", differentemente de SUS+PENDER
ou SUS+TER, onde o "B" se transformou em "S" desde o latim.


Outra familia de reputação suspeita é a dos verbos em PUTAR, que nada
tem a ver com a puta ou prostituta, mas com o latim PUTARE que, si lhe
applicarmos todos os prefixos, dará verbos como APPUTAR, OPPUTAR e
SUPPUTAR, mas que nos interessa aqui por causa do verbo COMPUTAR,
existente no portuguez ao lado de CONTAR, que tem a mesma origem, ou
seja, dois filhos da mesma matriz, que não é meretriz mas tem um
legitimo e um bastardo. Ao bastardo refere-se o leitor que me pergunta
si não deveriamos, então, graphar COMPTAR, COMPTA, COMPTO,
COMPTABILIDADE, COMPTISTA, etc. A rigor, sim, como fazem os francezes,
que até differenciam COMPTE (conta) de CONTE (conto). Mas a tradição
escripta ja consolidou CONTAR para as duas accepções, numerica e
narrativa, de modo que não acho necessario haver trez formas (CONTAR,
COMPTAR e COMPUTAR) para a mesma palavra. Em todo caso, registrei as
alternativas no nosso diccionario.


Envie sua questão a mattosog@gmail.com ou seu pedido para receber uma
copia digital do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO de Glauco Mattoso.


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